Antropocénica

O neologismo mantém uma relação com o termo Antropoceno, naquilo que se difunde cientificamente, grosso modo, da agência humana no ambiente, portanto, as diversas ações antrópicas que transformam o Mundo e, de forma progressiva, pelas sociedades modernas sob impulso do Capitalismo, nesta acepção temporal, no âmbito do recorte histórico e geográfico proposto pela série Antropocénica. Todavia, esta nova palavra se libera da ênfase geológica, no sentido das definições que se elaboram no seio da comunidade científica e, propriamente, das geociências. Assim, mantida aquela relação, não apenas o novo termo reconhece o fato científico dos impactos que afetam processos naturais, em escala global, com evidências no contexto estratigráfico do tempo geológico recente, por exemplo, identificadas em prospecções por todo o planeta; mas, sobretudo, designa a existência de nossa espécie no Mundo, presença que habita e assim atua na mutação das paisagens no tempo: as distintas ações antrópicas se deram e se dão em lugares, compreendidos como palco, referência ao teatro, numa primeira instância simbólica. Tal abrangência transpassa as fronteiras entre Holoceno e Pleistoceno ao encontrarmos, nesta temporalidade mais profunda, os primeiros de nossa espécie. Mas para o conceito aqui proposto, importa menos as predefinições das eras geológicas, pois interessam mais as considerações filosóficas do Antropoceno, tal como conceituadas nesse dicionário. Antropocénica observa esse ator social, que entra em cena desde um passado relativamente distante, vivendo e habitando em sociedade, ser transformador, nos avanços de suas tecnologias que, progressivamente, influenciam, em vários níveis e com impactos variados, nas dinâmicas do planeta, pela sua interação com o ambiente, com outros seres, e consigo mesmo, isto é, consideradas as sociedades humanas. Personagem plural, protagonista de seu próprio drama, sujeito ambivalente, ambíguo, criador e destruidor, que elabora e interage em sua cena. Antropocénica, no feminino, tanto pela paisagem e a era em que a existência humana começa a atuar e a expandir suas ações no teatro do Mundo, quanto pela narrativa desta agência do humano, daí podermos referir às cenas desse atuar, estejam elas expressas em antigas ou novas ruínas, em redes urbanas etc. O termo ainda remete a outras expressões artísticas além do teatro, como a pintura, a gravura, a fotografia, o cinema, meios expressivos pelos quais artistas diversos elaboraram e elaboram imagens e imaginários das ações humanas nas paisagens, de suas cenas; e sugere a difusa e massiva produção de imagens — seja pela indústria cultural de modo mais amplo, seja pelas pessoas, em posse de dispositivos móveis de comunicação, com suas câmeras integradas — nas relações sociais intermediadas por telas eletrônicas nesta existência contemporânea de nossa espécie, marcada pela aceleração e instantaneidade, pela incessante produção e consumo das cenas humanas espetaculares do presente. [SLC]