Ruínas em Cena no Teatro do Mundo em Mutação


Silvio Luiz Cordeiro

Arquitecto e Arqueólogo

Centro de Estudos Globais / Universidade Aberta / Portugal


Nas paisagens do mundo contemporâneo, encontramos evidências da progressiva e intensa acção transformadora do ambiente pelas sociedades humanas ao longo do tempo, sobretudo pelas culturas urbanas, de civilizações diversas, desde aquelas que existiram no passado às sociedades que habitam e constroem as grandes cidades de hoje, cujas imagens, muito expressivas — ao denotarem a dimensão e a complexidade do fenómeno — são as que representam certas metrópoles e a formação de megalópoles no tempo presente.

A imagem técnica imaginária acima (representação de uma noite total na Terra, vista em sua completude) como modo de análise e evidência da realidade urbana no planeta. A partir da informação visual sobre a iluminação eléctrica nocturna, principalmente concentrada em zonas urbanas, captada por sensores instalados em satélites, cientistas da NASA mapearam a urbanização contemporânea. Os pontos de maior intensidade luminosa representam grandes cidades, interconectadas numa rede urbana expandida, que coincide com redes de infra-estruturas técnicas, difusamente energizadas. Em Antropocénica, como referência ao Sul Global, subvertemos a orientação habitual do mapa mundi. Data: Marc Imholf (NASA GSFC) e Christopher Elvidge (NOAA NGDC). Imagem Original: Craig Mayhew e Robert Simmon (NASA GSFC). Imagem Editada: Silvio Luiz Cordeiro.

No início do século XXI, pela primeira vez na história, mais da metade da população mundial passou a viver em cidades, facto que evidencia a expansão do modo de vida urbano e a consolidação de redes urbanas, que assumem formas tentaculares, redesenhando antigas paisagens ao configurar territórios artificiais, interconectados por estruturas técnicas de múltiplos sistemas (energia, água, transporte etc.), assim como as próprias redes telemáticas, cuja existência e eficiência amplificam a condição de instantaneidade, agência essencial na dinâmica vigente que nos envolve.


No teatro actual das paisagens urbanas vistas em países meridionais, ex-colónias de Portugal, concentram-se problemas expressivos de uma urbanização incompleta, cuja fisionomia comum, por exemplo das periferias nas cidades maiores, é marcada por vastas favelas, paisagens marginais (e marginalizadas), onde altos índices de violência são verificados. Diante de tais territórios, cenas contrastantes emergem entre as benesses aparentes do crescimento económico (vinculado a processos predatórios) e o abandono social.

No século XXI, três imagens da maior metrópole sul-americana, principal centro económico e financeiro do Brasil, com estruturas-índices que acentuam atributos da grande cidade de hoje, como dilatado organismo urbano tele-cinemático. Pelo contraste no presente, entre tempos desse território artificial, compreende-se a dimensão e dinâmica das mudanças, desde seu passado como aldeia jesuítica implantada em território indígena Tupiniquim em 1553-1554. Imagens: Silvio Luiz Cordeiro.

Quais são as cenas e cenários dos impactos actuais e pregressos deste processo na condição humana e nas paisagens habitadas? E os contrastes, conflitos e temporalidades expressos nos lugares vivenciados? Que evidências propiciam uma certa medida das transformações desses lugares? No drama da paisagem, quantos referenciais e imaginários — físicos, simbólicos, afetivos — conformam, abrigam, desvelam memórias e narrativas?


Questões como estas motivaram a proposição da série internacional de estudos e encontros transdisciplinares Antropocénica — idealizada por mim e o filósofo Dirk Michael Hennrich; e coordenada por nós e a arqueóloga Maria da Conceição Lopes — na perspectiva das reflexões sobre o Antropoceno, mas a partir de um recorte histórico e geográfico inicial, com referências às paisagens de Portugal, do Brasil, ilhas no Atlântico, Índico e Pacífico, sítios em África, Índia, China e Japão, compreendidas na memória das travessias marítimas durante a exploração colonial mercantil dos portugueses. Abrange-se, portanto, um contexto amplo, como palco das acções humanas dinamizadas por relações históricas e económicas nos lugares envolvidos pelas navegações portuguesas nos séculos XV e XVI.

Imagem por varredura a laser das ruínas de um dos primeiros engenhos de açúcar instalados no Brasil (circa 1540): o que resta do chamado Engenho São Jorge dos Erasmos remanesce inscrito na paisagem urbana periférica da cidade litorânea de Santos, Ilha de São Vicente. Os vestígios de tais estruturas arquitecnicas, reconhecidas como património histórico nacional, são testemunhos físicos que documentam a manufactura do açúcar, prefigurando a linha de produção industrial capitalista, implantada nos tempos de conquista de antigos territórios indígenas, de etnias subjugadas, exploradas pela escravidão, assim como das gentes trazidas de África, a partir da exploração mercantil colonial quinhentista, cuja dinâmica fundaria as bases de uma sociedade mestiça. Imagem: Silvio Luiz Cordeiro.

Ainda que a definição científica do início pelo qual podemos identificar a nova época geológica considere a chamada Grande Aceleração, nossa abordagem propõe aquele recorte inicial como fator relevante do complexo fenômeno que, pela primeira vez na história humana, engendra a progressiva interconexão de territórios e seres numa escala mundial, provocada pela colonização. Contudo, em referência a tais lugares nessa geografia expandida, a série de encontros também aborda fatores que documentam memórias ainda mais antigas, inscritas no teatro de paisagens conformadas no tempo, no sentido de se redescobrir ou recuperar a própria história humana anterior ao contexto dessas viagens oceânicas inauguradas pelos portugueses — vale lembrar, também referidas para o início da chamada Idade Moderna.

À esquerda, escavação arqueológica do Claustro da Sé de Lisboa (2011), sítio exemplar pelas evidências das cidades anteriores (de Olisipo à Luxbuna islâmica). À direita, colunata remanescente do Templo Romano de Évora durante o restauro (2017). Imagens: Silvio Luiz Cordeiro.

Pois revisitamos processos anteriores de exploração colonial, migrações, invasões e fundações de cidades sobre terras ancestrais conquistadas no chamado Velho Mundo, banhado pelo Mediterrâneo. Entram em cena, portanto, testemunhos físicos — ruínas em sítios arqueológicos de lugares significativos — a saber: tanto aqueles relacionados com a história da colonização de territórios ibéricos no ocidente da península pelos romanos na Antiguidade, depois pelos suevos, visigodos e mouros na Idade Média, territórios delimitados pelas fronteiras de Portugal, o primeiro Estado Moderno, quanto determinados sítios em Ilhas do Atlântico e do Índico, em África, Índia, China e no Brasil, incluindo referências a vestígios da história humana muito anterior a estes processos, por exemplo de culturas paleoindígenas e arcaicas na Amazónia, vasta região da América do Sul que elegemos como tema central da mostra TransAmazónias: Zonas Imaginárias, com minha curadoria e produzida especialmente para o primeiro encontro da série Antropocénica em Portugal no ano de 2022.

A expansão urbana de Manaus, capital do estado do Amazonas, assim como nas grandes cidades brasileiras, agrava o problema da poluição da água, por exemplo da falta de infraestruturas de saneamento básico, que deveriam atender as zonas periféricas em crescimento. Ambas imagens acima, de bairros da metrópole amazonense, ilustram tanto o ritmo quanto a forma de tal processo numa paisagem permeada pelas águas. Imagens: Dirk Michael Hennrich.

Assim, vistos em conjunto, os sítios seleccionados compreendem as diversas transformações no ambiente pela construção de paisagens culturais no tempo. Se os vestígios mais antigos, como aquelas evidências pretéritas em ruínas da Antiguidade, não são suficientes para cumprir exigências da comunidade científica enquanto marcadores geológicos para se definir o inicio do Antropoceno, todavia elas importam como referencial para desdobramentos históricos futuros, posto que nelas podemos reconhecer muitos dos elementos que, séculos depois, entrariam novamente em cena, por exemplo: as navegações entre oceanos, a expansão urbana e comercial, a escravatura.


Tais evidências de cenários passados, onde se localizaram atividades relacionadas com o domínio territorial e humano no contexto da colonização romana da Península Ibérica, por exemplo, estão nas ruínas como a antiga villa romana de São Cucufate, em Vila de Frades, Vidigueira, Portugal: antes de ser adapatada ao uso religioso na Idade Média, quando o lugar já estava em ruínas, a propriedade de romanos abastados foi explorada por séculos, com mão de obra escrava no território alentejano. Passado o tempo, encontramos, por exemplo, os mesmos elementos de processos coloniais novamente em cena, como testemunham as ruínas da Cidade da Ribeira Grande (Cidade Velha) em Cabo Verde; os remanescentes arquitectónicos do Engenho de Erasmus Schetz em Santos, Brasil; as evidências vestigiais da antiga cultura Tapajó, subjugada no período colonial do Brasil e que jaz sob a cidade amazónica de Santarém, no estado brasileiro do Pará, assim como da cultura indígena que habitou o sítio a partir do qual se expandiu a maior cidade da Amazónia brasileira, Manaus.

Na Amazónia, novas atividades e estruturas surgiram no tempo, incluindo o crescimento periférico de cidades, motivado pela exploração capitalista que se introduziu na região. Fordlândia, Projeto Jari, Projeto Carajás, plantações de soja, pecuária, madeireiras, garimpo, são alguns exemplos no Pará, estado com grandes áreas devastadas. A rodovia Transamazónica, as hidrelétricas — Belo Monte, Balbina, Jirau, Santo Antonio, assim como as usinas projectadas para o rio Tapajós — entre outras infra-estruturas, assinalam a transformação da paisagem regional e insistem em modos predatórios de integração da Amazónia aos setores produtivos, sob demandas e práticas económicas que transcendem fronteiras. Ambas imagens acima, documentam a construção de Belo Monte, a maior hidrelétrica na Amazónia (a maior do mundo), pelo barramento e o desvio do rio Xingu, gerando diversos impactos sobre o ambiente, povos indígenas e ribeirinhos, além de influir na dinâmica de paisagens urbanas, por exemplo da expansão periférica de Altamira no Pará. Imagens: Lalo de Almeida.

São estes, entre outros fatores, que actuam no desdobramento de novos processos que alcançaram, entre os séculos XV e XVII, todos os continentes, disparando-se assim eventos em escala global, pela progressiva interconexão de territórios, suas gentes, seres, matérias, objetos e ideias.

À esquerda, vista da skyline da cidade de Manaus, com a cúpula do Teatro Amazonas ao centro, símbolo do poderio económico do século XIX — sobretudo advindo da exploração dos seringais e seringueiros — de uma elite urbana culturalmente identificada com a Europa. À direita, troncos de grandes árvores cortadas em desmatamentos no interior da Selva Amazónica e transportados pelo rio Solimões até um entreposto fluvial na altura da cidade amazonense de Tefé. Imagens: Silvio Luiz Cordeiro.

Entretecemos múltiplas fontes e reflexões sobre as paisagens vivenciadas no tempo, como o contraste entre ruínas e vestígios do passado e as estruturas do presente, enquanto índices de processos transformadores nos lugares indagados e das relações dinâmicas (culturais, políticas, sociais, económicas, ambientais, tecnológicas etc.) que instauram novas formas pelas quais as sociedades imprimem, cada qual em seu tempo histórico, as suas marcas nos territórios habitados.

Em fins do século XIX, a recém república instaurada no Brasil, por militares e políticos alinhados aos ideais positivistas, mobilizava recursos para expandir infra-estruturas de comunicação pelo interior do país, visando integrar regiões, ainda pouco mapeadas, ao sistema telegráfico nacional, abrindo-se com isso novas frentes de colonização e o encontro com povos indígenas que lá habitavam. No início do século XX, sob o comando de Cândido Mariano da Silva Rondon, a instalação da linha telegráfica seguiu rumo noroeste, alcançando o Amazonas desde o Mato Grosso. A imagem acima, de 1913, mostra Rondon (visto no centro da fotografia) em aldeia da etnia Paresí no Mato Grosso, presenteando mulheres indígenas. A cena simbolicamente também representa o imaginário de antigas formas de atração e contacto utilizadas por navegantes, mercadores e colonos europeus, quando aportaram no litoral atlântico brasileiro, encontrando primeiro, cinco séculos atrás, com várias etnias Tupi em seus territórios ancestrais.  Imagem: Luiz Thomaz Reis / Acervo Museu do Índio.

Como resultante desta série de internacional, teremos um conjunto multimedia a ser difundido com as diversas reflexões e referências aportadas, a transgredir fronteiras disciplinares, em novos olhares sobre as transformações e memórias inscritas nas diversas paisagens indagadas, expressas nas cenas do drama humano no teatro do mundo em mutação.


[S.L.C.]