TransAmazónias: Zonas Imaginárias

Durante o primeiro encontro da série internacional Antropocénica, a ser realizado em Portugal no mês de Outubro de 2022, teremos em conjunto a mostra TransAmazónias: Zonas Imaginárias, como evento artístico-cultural da série, iniciando-a especialmente em Lisboa.

No contexto mais amplo que motiva a própria série Antropocénica, elegemos a Amazónia como tema central da mostra deste ano: vasto território da América do Sul onde coexistem desde povos originários (alguns ainda em relativo isolamento) aos impactos de atividades económicas em diversas frentes de exploração (que avançam inclusive sobre terras indígenas), impactos de vários níveis, muitos ultrapassam fronteiras, ameaçam o equilíbrio do bioma e a sua interacção, em escala global, com a biosfera em tempos de Mudança Climática. Neste sentido, vemos a Amazónia como território-síntese das complexas questões envolvidas em dinâmicas predatórias sob o Antropoceno, a revelar o drama humano e ambiental expresso nas paisagens amazónicas contemporâneas, em mutação, sob impulso da violência nas formas exploratórias, em contraste com a vivência de culturas indígenas que habitam a floresta.

Mas seria possível compreender esse território, considerando-se apenas uma Amazónia, unívoca?

Outras mais coexistem. Desde aquelas que foram nomeadas, sem sabermos hoje como foram chamadas, por nomes assim criados pelos seus primeiros habitantes humanos — que indagavam o ambiente e deram nomes a lugares, plantas, bichos — às que foram vivenciadas pelas antigas etnias descendentes, que assim transformaram outra vez os lugares em paisagens culturais; até aquela outra Amazónia — a que mais se difundiu, entre as sociedades urbanas — imaginada e representada (textual e visualmente) pelos primeiros europeus e todos os demais que ingressavam, por terra e água, nos recessos da grande floresta, transformando novamente paisagens ancestrais pelas frentes de colonização, velhas e novas, num processo que, por fim, ainda marcha pelo território, passados os séculos.

Da Amazónia, poderíamos talvez vê-la — e compreende-la — como vasto território de imaginários, que transcende qualquer visão redutora, que a defina — e a confine — a um só modo de existência.

Na mostra assim proposta, quatro filmes exemplares dialogam entre si e as imagens fotográficas projetadas nas ruínas, além de um módulo histórico virtual. Ver-se-á para além da Amazónia, nos imaginários múltiplos a desvelar, no teatro vastíssimo, o tragédia do tempo presente, que atualiza violentas formas de colonização instauradas no tempo.

A partir do alto à esquerda, em sentido horário: habitante da Reserva Extrativista Arapixi, em Boca do Acre, estado do Amazonas, corta vegetação para a passagem de uma canoa até a área de coleta de castanhas no interior da floresta; mulheres e meninas da etnia Pirahã, observam motoristas que passam pela rodovia Transamazónica, na esperança de receberem alguma doação de alimento; um homem da etnia Yawalapiti caminha em sua aldeia, envolto pela fumaça que cobriu o Parque Indígena do Xingu, na devastação da floresta por incêndios provocados; garimpeiros trabalham na mineração de ouro em uma das maiores zonas de exploração aurífera, na região norte do estado do Mato Grosso. Imagens: Lalo de Almeida.

A mostra se inicia no dia 7 de Outubro, com projeções de fotografias de Lalo de Almeida especialmente nas Ruínas do Teatro Romano de Lisboa, seguindo depois para Évora, no dia 8 de Outubro, com exibições de filmes dos diretores Jorge Bodanzky e Andrea Tonacci no Cinema -fora- dos Leões / Auditório Soror Mariana. No dia 9 de Outubro exibiremos o recente filme da artista Janaína Wagner nas Ruínas da Villa Romana de São Cucufate, em Vidigueira, Vila de Frades. O evento articula-se como narrativa conceptual que transporta temporalidades e transita por imaginários deste imenso território no continente sul-americano, na curadoria de imagens do fotojornalista Almeida, a serem projetadas em importante sítio arqueológico e histórico de Lisboa, assim como na seleção de filmes de Bodanzky e Tonacci para exibição em Évora, além do filme de Janaína Wagner nas ruínas dos tempos da colonização romana em Portugal, reunindo quatro autores de documentos visuais significativos sobre a Amazónia do presente.

Um módulo histórico virtual, que estará disponível em Outubro de 2022 para consulta no site Antropocénica, será composto por conteúdos complementares, a partir da seleção de imagens e filmes sobre questões indígenas e formas de exploração económica da Amazónia, de modo a contribuir com acções educativas. Assim, tal módulo apresentará referências produzidas desde a segunda metade do século XIX até meados do século XX, quando novas frentes de colonização anunciavam as profundas transformações nas décadas sucessivas, que progridem ainda hoje, a devastar o bioma e as condições de vida das comunidades humanas originárias e tradicionais que habitam a floresta.

Assim, no dia 8 de Outubro, abrindo a mostra no Cinema -fora- dos Leões, ligado à Universidade de Évora, teremos um especial dedicado a Andrea Tonacci, cineasta italiano radicado no Brasil, falecido em 2016, com a projeção de Serras da Desordem. Nesta homenagem, convidamos o indigenista Sydney Possuelo para um relato de sua experiência na Amazónia, sobretudo na questão dos povos indígenas isolados, além de comentar sobre o tema do referido filme, do qual participou. Na sequência, outro homenageado é Jorge Bodanzky, com a exibição de Iracema - Uma Transa Amazónica (de Jorge Bodanzky e Orlando Senna), obra híbrida, entre documentário e ficção, que desnuda a degradação humana e ambiental da região, filmada em plena ditadura militar no Brasil, exibição seguida de um debate com o diretor.

Concluindo a mostra, no dia 9 de Outubro, exibiremos um vídeo relacionado com a presença humana — pretérita e contemporânea — na Amazónia e, por fim, o filme Curupira e a Máquina do Destino, da artista Janaína Wagner, encerrando a mostra.


Curadoria

Silvio Luiz Cordeiro


Autores Convidados

Janaína Wagner

Lalo de Almeida


Autores Homenageados

Andrea Tonacci

Jorge Bodanzky


Convidado Especial

Sydney Possuelo


Produção Executiva

Dirk Michael Hennrich

Luís Ferro

Silvio Luiz Cordeiro