Eixos

Antropocénica, como exercício transdisciplinar, emerge da interacção entre as esferas da Filosofia, Arqueologia e Arquitectura, para ultrapassar as fronteiras que habitualmente as definem enquanto disciplinas autónomas, de modo a dinamizar certos eixos vetores da série internacional de encontros, a partir desta transgressão de limites.

O que une as três esferas propostas para se iniciar uma reflexão ampla sobre as questões urgentes do Antropoceno é a relação com as origens. Explícito na grafia das palavras Arquelogia e Arquitectura, mas também na constituição inerente da Filosofia, está o prefixo arché, pelo qual transparecem desde as questões do princípio, das (múltiplas) origens e vestígios ao desígnio de superioridade ou primado de uma arte de construir e seu potencial na edificação de outras formas possíveis de habitar.

Nestas três áreas ou instâncias substantivas da série de encontros, releva-se ainda uma articulação significante entre Arqueologia e Arquitectura, ao compreendermos as dimensões e interacções entre tempo vivenciado e espaço habitado ou ambiente construído, quando vistas pela Filosofia.

Filosofia, Arqueologia e Arquitectura são modos de sondar e interrogar as aparências supostamente pré-estabelecidas, as convicções fixadas, os hábitos e costumes predominantes, se forem entendidos e praticados como exercícios subversivos.

Interagem entre si as três esferas em Antropocénica; e, assim, consideramos:

Filosofia não como vontade de saber, mas como a necessidade de pensar o senso através da inseparabilidade entre aisthesis e teoria, entre sensitividade e contemplação. Uma Filosofia Práctica e uma Filosofia da Paisagem, que parte da experiência corporal e sensitiva das paisagens, sempre considerados como formas próprias de vida, como rostos e como corpos formados e transformados pelas mais diversas actividades não-humanas e marcados e mutilados pela açcão humana;

Arqueologia não apenas como uma escavação do passado, de temporalidades em camadas estratigráficas diferenciadas, mas como um saber do Tempo e da Finitude, por isso, um aprendizado a partir de vestígios que se sedimentaram na memória corporal da Terra e da(s) espécies(s), abrindo-se a ideias de futuro, num desdobramento prospectivo das idades.

Arquitectura não como um projetar soberano e antropocêntrico, rendido ao pensamento apropriador da vontade de fundamentar convicções objectivas, não como instrumento colonizador de territórios, mas sim como reconsideração do sentido an-arquico de todas as existências, uma arte propícia e imanente à diversidade da vida na Terra, diante a finitude dos indivíduos.

A cada encontro da série, seis eixos temáticos serão aprofundados a partir dessa perspectiva transgressiva entre Arqueologia, Arquitectura e Filosofia, dando ênfase aos temas intrínsecos da problemática do Antropoceno, a saber:

— Descolonizar as paisagens do Antropoceno: a importância de uma descolonização recíproca e permanente do pensamento em todas as suas feições.

Mundividências do Antropoceno: a inerência, experiência e exploração humana da Natureza.

Imagens e imaginários sobre o Antropoceno: a imaginação e a imagem no mundo / do mundo que está em vias de despedir o Humano de sua cena, com ajuda do Humano sob o Capitalismo.

Sonoridades do Antropoceno: a dimensão sónica das paisagens em mutação e evidências sonoras como marcadores imateriais da progressiva artificialização da Terra.

— Arqueogeografias do Antropoceno: a memória do tempo profundo (longa duração) evidenciada em vestígios físicos nas paisagens, uma arqueologia do saber geohistórico para indagar a condição humana e o porvir.

— Anarquitecturas do Antropoceno: a questão pela forma como construir a contingência da vida humana, de instaurar uma ética prática, um habitar transitivo como um renovado habitar com a Terra.