Abismo
Ecos viajantes que não se assentam, fundo sem fundo, medo e delírio, extensão sem término, queimadura de memória, enigma e mistério, atração e queda, experiência sem medida, o mundo de baixo e o mundo de cima espelhados em asas, crateras arregaladas de um olhar espiralado, restos de dinossauros e cometas caídos, cotidiano e cosmos, fraturas de concreto armado envoltas em ciclos de retorno, imã.
Foi a busca da imagem de um abismo, forma que persiste sem resolução e sem contorno, que alumbrou o filme Quando o Segundo Sol Chegar / Um Cometa nos Seus Olhos (2024, 14'), documentário experimental que encerra a Trilogia Transamazônica, um conjunto de filmes que realizei sobre a fantasmagoria da Rodovia BR-230. Essa trilogia se organiza a partir de uma travessia cosmológica por este megaprojeto infraestrutural desenvolvido durante a ditadura cívico-militar do Brasil. Partindo de uma paisagem atravessada por detritos cósmicos e fósseis terrestres, esse conjunto de imagens e enunciados articula a vida cotidiana a tempos vastos, contrapondo o tempo cósmico à experiência terrestre. Nesse deslocamento entre escalas, o abismo não existe como fundo distante, mas como regime de forças que aproxima o que parecia separado.
Ao apresentar o vislumbre de um Segundo Sol — brilho fugaz que anuncia uma transformação iminente — Quando o Segundo Sol Chegar / Um Cometa nos Seus Olhos e seu texto, se desdobram como um exercício de imaginação a ser construído dentro dos olhos: um dia em que as pedras do planeta, restos de cometas e meteoros caídos, partiriam de volta para o céu. Na realidade atual, onde a crise climática do Capitaloceno e sua Solastalgia operam como anúncios iminentes de uma catástrofe a vir, a chegada de um Segundo Sol toca na angústia de futuro tão presente nas conversas e imaginações das pessoas contemporâneas: vertigem e presságio. Como texto, as legendas do filme, a seguir, operam por fragmentos, deslocamentos e repetições, configurando-se como um espelho do abismo que o filme se investe a navegar. Nelas, a percepção se torna instável: ver é sempre ver o que não está, e o mundo parece inverter-se e se reconfigurar continuamente. No filme, em diálogo com Spiral Jetty (1972), de Robert Smithson; Autobiography of Red (1998), de Anne Carson; e Le Ravissement de Lol V. Stein (1964), de Marguerite Duras, o abismo se inscreve como forma e experiência: espiral sem centro, memória em combustão, acontecimento que insiste como lacuna. Abismo e imã: zona de atração e vertigem, onde tudo parece ao mesmo tempo cair e ser puxado de volta.
Janaina Wagner
1. 00:00:05:22 - 00:00:15:21
Quando o segundo sol chegar
Para realinhar as órbitas dos planetas
Derrubando com assombro exemplar
O que os astrônomos diriam se tratar de um novo cometa*
2. 00:00:16:23 - 00:00:21:23
Antes que eu visse, você disse
e eu não pude acreditar*
3. 00:00:22:22 - 00:00:31:14
Eu só queria te contar
que eu fui lá fora e vi dois sóis num dia
e a vida que ardia sem explicação*
4. 00:01:36:05 - 00:01:39:23
Em um buraco tão fundo quanto o céu é alto
5. 00:01:42:16 - 00:01:46:13
ou em um planeta, empacado a meio do chão
6. 00:01:51:00 - 00:01:54:12
como um destino reversível
7. 00:01:57:05 - 00:02:00:17
o mundo de baixo e o mundo de cima
8. 00:02:02:18 - 00:02:06:01
espelhados em asas
9. 00:02:10:08 - 00:02:15:08
um cão vermelho desliza pelo chão
como uma sombra libertada.
10. 00:02:18:00 - 00:02:22:07
Pisa fora do céu raspado e afunda para cima
11. 00:02:25:18 - 00:02:30:01
uma onda de desejo forte como uma cor.
12. 00:02:47:10 - 00:02:52:20
"É como comer o sol!"
13. 00:03:16:00 - 00:03:19:16
Ela pensou: "ou viraremos paisagem
14. 00:03:21:03 - 00:03:25:11
ou ficamos para ver como acontece.”
15. 00:03:37:09 - 00:03:42:09
Ela pensava sobre a diferença entre dentro e fora.
16. 00:03:46:03 - 00:03:50:23
"O dentro é meu”, ela pensou.
17. 00:04:10:10 - 00:04:15:18
E então parou.
18. 00:04:18:16 - 00:04:23:16
Tudo no recinto arremetia para longe
19. 00:04:26:06 - 00:04:31:07
rumo às bordas do mundo.
20. 00:04:56:02 - 00:05:00:12
Agora que estamos fazendo o caminho contrário
21. 00:05:02:18 - 00:05:07:03
a paisagem inteira parece estar invertida.
22. 00:05:18:20 - 00:05:21:14
Queimadura de memória
23. 00:05:25:01 - 00:05:31:02
"E as estrelas? Você vai me dizer
que nenhuma estrela está de fato lá?"
24. 00:05:32:15 - 00:05:35:18
"Bem, algumas estão,
mas outras se consumiram
há dezenas de milhares de anos"
25. 00:05:43:12 - 00:05:46:17
"Eu não acredito nisso."
26. 00:05:49:12 - 00:05:53:09
"Como pode você não acreditar,
é fato consumado."
27. 00:05:54:13 - 00:05:56:23
"Mas eu as vejo."
28. 00:05:57:21 - 00:06:01:19
"Você vê memórias.
Já não tivemos essa conversa antes?"
29. 00:06:03:07 - 00:06:07:23
"Você sabe o quão distantes
estão algumas dessas estrelas?"
30. 00:06:09:13 - 00:06:12:07
"Eu simplesmente não acredito."
31. 00:06:14:05 - 00:06:18:11
"Quero ver alguém encostar
em uma estrela e não se queimar.
32. 00:06:20:02 - 00:06:22:14
Levantar o dedo e dizer:
33. 00:06:23:08 - 00:06:27:09
— É só uma queimadura de memória!"
34. 00:06:30:17 - 00:06:34:20
Presa entre a língua e o gosto
35. 00:06:36:23 - 00:06:40:22
enviando mensagens invisíveis
entre o chão e o céu
36. 00:06:55:08 - 00:07:00:08
deixa atrás de si crateras arregaladas
de um olhar espiralado
37. 00:07:04:01 - 00:07:09:01
como ecos viajantes que não se assentam.
38. 00:10:58:20 - 00:11:03:20
Novo final:
39. 00:11:07:01 - 00:11:13:01
pelo mundo inteiro brisas vermelhas
seguiram soprando de mãos dadas.
40. 00:11:16:06 - 00:11:22:06
E lá estava um daqueles momentos
que são o oposto da cegueira:
41. 00:11:25:11 - 00:11:31:07
uma ou duas vezes, o mundo entornou
dos olhos de um para os olhos do outro
42. 00:11:34:12 - 00:11:40:08
"Qual o aspecto que tem a distância?"
43. 00:11:43:13 - 00:11:49:09
Ela irradia de um dentro, sem espaço,
até as bordas do que se pode amar.
44. 00:11:52:14 - 00:11:58:10
Abismo e imã.
45. 00:12:01:14 - 00:12:07:10
O resto, eu esqueci.
Legendas do filme Quando o Segundo Sol Chegar / Um Cometa nos Seus Olhos, de Janaina Wagner.
* O Segundo Sol, letra e música de Nando Reis, gravada por Cássia Eller em 1999.