O conceito de civilização se opõe à natureza em relação às sociedades humanas – um artefato humano, seja no âmbito das ideias ou da materialidade tangível, que facilita modos de vida social, quer dizer formas de vida civilizadas: isto é, ordenadas e reproduzíveis, que protegem contra os imprevistos da vida no ambiente natural. No cerne desse conceito antigo reside a ideia de que as ações antropogênicas que libertam as sociedades humanas das restrições do meio ambiente natural criam o mundo racional onde as sociedades podem alcançar prosperidade. No pensamento antigo do ‘Velho Mundo’, isso incluía técnicas agrícolas, a construção de navios e o conhecimento de navegação, e além disso, leis, cidades, governo, artes e religião organizada. Como conceito, significa progresso humano – sobre o estado natural de sobrevivência e sobre a natureza, libertação dos fardos e perigos naturais. Mas o impasse dessa mentalidade ‘ocidental’ que se caracteriza pela destruição do clima e a natureza autodestrutiva do desenvolvimento capitalista ressaltou a riqueza de outras formas de pensar a relação humana com a natureza.
Desde que a vida social organizada se tornou associada à urbanização, as sociedades contemporâneas que mostram respeito pelo meio ambiente natural e vivem com formas moderadas de intervenção nele estão colocando em destaque uma riqueza ideológica na qual o conceito ocidental de civilização era deficiente – em resumo, o respeito pela natureza também é civilização. A noção do que constitui civilização tem variado; para algumas sociedades, pode ser o estágio de desenvolvimento e organização social e cultural humana considerado mais avançado em uma determinada época, como uma forma de sociedade urbana organizada; para outras, denota diferentes expressões históricas de vida social que abrangem diferentes prioridades e conjuntos de valores. Devido às vicissitudes históricas, a civilização passou a ser sinônimo de formas de vida urbanizadas em partes do mundo moderno, que incluíam, de tempos em tempos, práticas de governo injustas, como impérios, tratamento desigual dos membros da sociedade, violência e escravidão, muitas vezes em benefício de uma pequena classe dentro da sociedade, que acumulava riqueza material e a ostentava. “Toda civilização é um testemunho da barbárie”, como disse Walter Benjamin − revertendo a oposição ideológica do Iluminismo que concebia a 'civilização' (da Europa e da América do Norte) em oposição à 'barbárie' (quase, o resto do mundo) − nesse mesmo sentido de que o avanço tecnológico tangível supera todas as outras formas necessárias para uma vida amigável, funcional e justa. As reivindicações de superioridade eram baseadas nessas expressões externas e materiais da vida humana: seja no ambiente construído ou na produção de conhecimento científico e técnico. Ao longo da história, a superioridade foi atribuída a essas marcas de civilização.
No entanto, o progresso tecnológico por si só não basta como critério de civilização. Sem valores sociais desenvolvidos ao longo de milênios nas sociedades humanas, a presença do progresso tecnológico pode entrar em conflito com a vida civilizada – como quando armas tecnologicamente avançadas são patrocinadas e usadas para aniquilar populações inteiras sistematicamente. Civilização não é sinônimo de progresso tecnológico, pois sem o bem-estar social das sociedades que constituem as populações de um determinado lugar e tempo, nenhuma sociedade organizada pode prosperar, livre das amarras da natureza. Por essa razão, a ausência ou a restrição de leis, a sobreposição da legislação por aqueles que exercem força excessiva, o domínio dos mercados capitalistas sobre as pessoas apontam para modos de vida incivilizados. É a antítese da civilização. Nesses casos, o progresso tecnológico equivale a viver na ausência de liberdade e sob a pressão não da morte pelos perigos da natureza, mas sim pela dominação do poder sobre os mais fracos. A civilização, como a vida humana organizada que permite que as sociedades prosperem, é o sistema de vida que protege os humanos tanto dos perigos de viver na natureza sem meios de proteção quanto do perigo representado pelos excessos do poder humano.
Eleftheria Pappa