Colonizar | ES / EN
O sentido de colonizar refere-se a uma ação premeditada, uma iniciativa levada adiante por um grupo social, comunidade étnica ou mesmo pelo governo de um Estado (promotor da colonização, executada por seus agentes), que se põe em movimento para outro lugar, visando estabelecer a posse, exercer o controle e domínio sobre um território de interesse, seja ele já habitado ou não.
Uma ação muitas vezes motivada por fatores de ordem econômica, mas também política e ideológica, e que, neste sentido, com frequência na história das civilizações, envolve estratégias de imposição cultural e religiosa aos habitantes dos lugares assim dominados, por exemplo, quando a política colonizadora define uma língua e religião oficiais, estrangeiras e estranhas, portanto, à população nativa, que deve adotá-las.
Colonizar é promover a expansão e exploração, instaurando-se outras formas sobre paisagens anteriores, que são transformadas no contexto de processos violentos, e que tantas vezes atingem a dimensão bélica, em cenários de conflito e disputa (inclusive simbólica), acompanhados de variadas formas de sujeição.
No tempo presente da civilização hegemônica no mundo, o sentido de colonizar também envolve um alcance mais dilatado, que chega à escala interplanetária, conforme determinados projetos em progresso hoje divulgam, visando fundar, no futuro próximo almejado, uma colônia humana em Marte!
Situações extremas de colonização foram documentadas em diversas fontes, demonstrando-se a permanência dessa antiga prática de domínio territorial, a subjugar gentes, impondo-lhes um novo cenário e condição, por exemplo, como escravos.
O conceito pressupõe a invasão, como estratégia ou atividade inerente à própria ação de colonizar. Não por acaso, o termo foi apropriado por biólogos (com alguma noção da história), ao observarem que diversas espécies da fauna, flora e funga, consideradas invasoras, passam a dominar determinados ambientes, colonizando-os.
Compreendida em sua dimensão humana, colonizar é um drama de longa duração, com raízes profundas na memória cultural das sociedades. A expansão de antigos impérios pelo progressivo domínio de territórios ancestrais, conquistados e submetidos de forma violenta, atestam isso. Ao se procurar pelas origens da civilização capitalista, encontrar-se-á casos extremos da violência colonial que inauguram a Idade Moderna, na expansão mercantil imperialista dos reinos ibéricos, iniciada por Portugal na África, expansão que atravessa o Atlântico, quando ambos os reinos avançam pelos vastos territórios continentais que seriam chamados pelo nome de America, a partir da difusão do mapa de Martin Waldseemüller, Universalis Cosmographia (1507), cartógrafo influenciado pela leitura que fez dos relatos de Vespúcio, o célebre navegador florentino a serviço de Portugal e Espanha.
Esse fato da história da colonização europeia, mostra o poder simbólico de nomear. A difusão do nome apagaria antigas denominações nas línguas de seus habitantes ancestrais. Abya Yala, em língua Kuna, é um dos nomes possíveis para contrapor-se à denominação eurocêntrica America, e seu uso hoje reitera a perspectiva decolonial latinoamericana, sobretudo na luta política indígena por direitos.
A colonização imperialista da África perdura até hoje, sob outras bandeiras, atores e corporações transnacionais.
No século XIX, o documento resultante da Conferência de Berlim (1884 - 1885), sem qualquer representante africano, é revelador da violência colonial.
Na II Guerra Mundial, a invasão militar maciça do território soviético pela Alemanha Nazista, chamada de Operação Barbarossa (Unternehmen Barbarossa), com o fim ideológico-racista de Apropriação de Terra (Landnahme) visando estabelcer um Espaço Vital (Lebensraum), promoveu uma guerra de aniquilação numa escala sem precedentes.
Décadas depois, considerada a história recente da Palestina, por onde se movimentam disputas entre atores antagônicos, marcadas pela violência sionista contra os Palestinos — a envolver narrativas e imaginários que se confundem num passado original remoto — entram em cena apoiadores com poderio militar expressivo, que fomentam uma guerra de extermínio, potencializada pelo fator ideológico-racista.
Assim, promove-se um genocídio, através de uma brutal Aproprição de Terra para instaurar um Espaço Vital (a Grande Israel), inflamado pela retórica mítica, com apoio principal estadunidense, com seu evidente interesse geopolítico, e cuja violência envolve a estratégia da Terra Arrasada (Verbrannte Erde, literalmente Terra Queimada).
Não se trata de uma estratégia defensiva, como a retórica sionista propaga, mas sim a execução de um plano expansionista para a colonização total do território do Outro, mesmo que isso signifique destruir tudo.
As cenas da violência colonial do imperialismo neofascita em marcha é um dos capítulos mais trágicos do transe atual do mundo.
Dirk Michael Hennrich e Silvio Luiz Cordeiro