Encruzilhada | ES / EN
No céu antigo (todo céu é a presença vista de um passado profundo), civilizações anteriores imaginaram figuras e aprenderam a relacionar os movimentos dos astros com as dinâmicas do tempo e o devir dos seres na Terra. E mais: certos asterismos nas constelações imaginadas tornaram-se referência essencial na procura dos caminhos.
No Hemisfério Sul, durante a expansão dos impérios coloniais por vias marítimas, mestres navegadores encontraram territórios, gentes e seres desconhecidos dos europeus naquele tempo.
Com instrumentos relativamente simples — o quadrante e, sobretudo, o astrolábio — eles ampliaram, a cada nova viagem, o mútuo conhecimento, geográfico e astronômico: desenharam mapas, telúricos e celestes, nomearam os diversos lugares na exploração empreendida, imaginaram constelações nunca antes vistas (ou esquecidas, na memória perdida de travessias muito mais antigas) e suas figuras de pontos estelares.
Entre elas, identificaram aquela que se tornou referência para as navegações que devassavam o Sul.
A astronomia moderna definiu o seu nome em latim, Crux. Toda exploração é deveras situada, e saber como chegar aos sítios de interesse é vantagem fundamental. Contudo, algumas vias chegam ao impasse, revelam o risco que demarca o desafio decisório.
A encruzilhada assim se desvela, como metafísica do futuro: o caminho selecionado é o desejo de alcançar uma realidade ideal projetada, mas talvez impossível de se chegar. Seguir por este caminho desejado poderia levar ao abismo o mundo todo, antes que à rara terra prometida pelo projeto de consumo do mundo.
O símbolo da cruz, imagem disseminada do antigo artefato de tortura do corpo dissidente, é também signo do risco que demarca a posse e o domínio do sítio colonizado.
É o lugar crítico do avanço, sem retorno, onde se cruzam as vias do porvir, que impõe decidir-se em seguir pelo progresso pretendido ou partir para outro rumo, no desejo de confluir em sintonia com existências para além daquelas tão somente humanas.
No tempo presente, a encruzilhada civilizatória está posta no centro das atenções, exemplarmente riscada na terra uma vez chamada de Vera Cruz.
Silvio Luiz Cordeiro