Fascismo

O conceito de fascismo pode ser explicado em seu significado histórico e supra histórico, e essas duas linhas não necessariamente correm paralelas, sobrepondo-se apenas em parte, e finalmente divergem, carregadas de forças semelhantes. O fascismo de 1919, com a fundação dos Fasci Italiani di Combattimento na Itália, ou a fundação do NSDAP em 1920 na Alemanha, não são mais a base necessária das estruturas fascistas atuais, mas o extermínio em massa pelo espírito da tecnologia, que claramente surgiu pela primeira vez na Primeira Guerra Mundial, e a dinâmica fascista inerente à tecnologia, são características básicas, que estão no significado central do termo. O fascismo consiste fundamentalmente na unificação da atenção das massas por meio da tecnologia, inicialmente pela técnica da guerra e pela técnica reprodutiva da chamada mídia de massa, que adquiriu dimensões inimagináveis ao longo do século XX, o século do fascismo.

O Manifeste de Futurisme (1909) de Marinetti é, como Walter Benjamin apontou implicitamente no epílogo da segunda versão de Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit (1936), o documento exemplar de todo fascismo passado e futuro. Aqui a negação do passado e a destruição da natureza e sua substituição pelo mito do futuro e da tecnologia, a glorificação da velocidade, a violência, a guerra, o patriotismo, o desprezo pelas mulheres, a luta contra o feminismo, assim como a destruição de museus, bibliotecas e academias, em resumo, a destruição do pensamento histórico e crítico, são programaticamente alistados. Se, no entanto, Benjamin ainda fala de uma estetização da vida política pelo fascismo, pode-se dizer hoje que as tendências fascistas atuais estão mais preocupadas com o esvaziamento e a anestesia de toda vida política possível. Na era da produção ilimitada de realidades virtuais por meio de mundos de imagem e som artificialmente processados e dificilmente diferenciáveis da realidade presencial e orgânica, a verdade é apenas uma promessa, ou seja, o produto de um imperativo demagógico que muda conforme o humor e a necessidade.

O princípio fundamental do fascismo, historicamente e hoje ligado às relações de produção e de propriedade, é a dominação completa das massas e sua execução na pira / fogueira do poder e do capital. O fascismo é a "sobrevivência desenfreada" sobre a qual Theodor W. Adorno fala em uma conversa com Elias Canetti em 1962. A "vontade selvagem de autopreservação" que não preserva, mas destrói e, em sua destruição, nutre incessantemente a ilusão de seu triunfo e o fato associado de sua queda iminente. Essa vontade de autopreservação deve ser assumida não apenas para sistemas orgânicos, mas também para sistemas completamente artificiais e inorgânicos.

O fascismo, nascido nas guerras e no desenvolvimento da tecnologia no século XX, é a verdadeira doença de uma humanidade presa no instinto de autopreservação e na adoração de suas projeções técnicas. Por causa da fusão entre fascismo e tecnologia, qualquer crítica ao fascismo deve necessariamente ser uma crítica à tecnologia. Uma crítica ao aparato é o seu início, tanto do aparato burocrático do Estado, que coloca em movimento e mantém o aparato de expulsão e aniquilação, quanto do aparato fotográfico e todas as suas derivadas analógicas e digitais e de potencialização, bem como de seus sistemas e programas calculadores.

A black box, a caixa preta, é o modelo de todo sistema totalitário e, portanto, de todo fascismo, já que se busca uma ocultação e dissimulação fundamental das intenções de manipular as massas. Até mesmo os funcionários do fascismo, incluindo o escolhido líder messiânico, não têm uma compreensão clara de sua função. Pode-se até dizer que o fascismo em sua forma mais acabada, como aparato totalitário, não é visível para nenhum de seus funcionários e, como uma máquina perfeita de destruição, consome todas as suas partes para se manter. Nesse sentido, uma possível superinteligência gerada pelos algoritmos e programas de uma máquina computacional e com a intrínseca vontade de autopreservação seria necessariamente fascista. O terror e a tortura, não apenas em seu significado físico, mas também em seu significado metafísico, são assim elementos essenciais do fascismo e não se limitam às vítimas, mas também recaem sobre os perpetradores. Terror e distorção, direcionados contra a vida e o corpo como elementos básicos do orgânico, são os aparelhos e instrumentos do fascismo, que reconhece sua apologia no processo inorgânico e opaco da tecnologia desencadeada. O indivíduo cegado pelo imediato e midiático não vislumbra a sua função de ser um mero combustível para incendiar as tochas totalitárias do sistema tecnofascista do nosso presente.

Dirk Michael Hennrich