Feminismos   |   ES  /  EN

São múltiplos e, muitas vezes, contraditórios os caminhos dos feminismos, bem como a sua História, podendo a definição do conceito ser tão ampla quanto as modalidades de lutas de todo o tipo de mulheres contra a opressão, a discriminação e a violência assentes numa ordem de poder patriarcal, ou de dominação masculina. No Ocidente, os feminismos entendem-se a partir de vagas: a primeira, na viragem para o século XX, com a luta pelo acesso a direitos políticos, por parte das mulheres burguesas brancas europeias; a segunda, com a luta por direitos sociais nos anos 1960 (Simone de Beauvoir). Pouco mais tarde, a partir do surgimento do conceito de “gênero”, que reconhece as identidades sexuais como construção social, distinta de caraterísticas biológicas, o conceito de “Mulher” definido a partir das realidades europeias e brancas é desconstruído e pluralizado, de modo a incluir mulheres de diferentes pertenças raciais, étnicas, de classe, religiosas, de orientação sexual, diversidade funcional, etc. O conceito de “queer” surge, então, para alargar as lutas contra o sexismo a identidades do espectro LGBTQIA+, aumentando o potencial desconstrutivo de género, como decorre, sobretudo, da obra de Judith Butler. 

A partir dos movimentos de mulheres negras nos EUA na década de 1970, desenvolve-se o conceito de “interseccionalidade” (Kimberlé Crenshaw), hoje vulgarizado para abarcar os feminismos que dão conta das múltiplas opressões que mulheres diversas podem sofrer, nomeadamente sexismo, racismo, classismo, homofobia, etc. Os feminismos podem também ser orientados por posições político-ideológicas ou causas, como, por exemplo, o feminismo liberal, marxista, decolonial, ecofeminismo. 

No âmbito da Antropocênica, é importante considerar os dois últimos — decolonial e ecofeminismo —, como movimentos no sentido de combater a destruição capitalista, colonial e patriarcal da Terra e dos seus recursos, a partir dos saberes das mulheres e no sentido do seu bem-viver. A descolonização dos feminismos — imperativo que se ouve, desde os anos 1980, a partir do chamado Sul global (Ásia, América Latina, África) — implica outros modelos conceituais, que chegam a colocar em causa noções estruturantes como “patriarcado” ou “gênero”. Os feminismos pós-colonial e decolonial denunciam a instrumentalização das mulheres colonizadas pelos poderes coloniais e neocoloniais, através da representação metonímica da “Mulher do Terceiro Mundo” (“africana”, “indígena”, “islâmica”) como objeto sem voz. Também os feminismos imperiais (Amina Mama) ou civilizatórios (Françoise Vergés) impõem agendas de intervenção exógenas, entendidas como uma forma de violência imperialista em relação às mulheres do Sul. A noção liberal de “igualdade de gênero” é contestada pelos feminismos decoloniais, no sentido em que não desfaz um modelo de organização política europeu assente no Estado, que convive bem com a colonialidade e o capitalismo. Surgem objetivos mais amplos como sumak kawsay, designação quíchua para um projeto político e cultural de bem-viver, comunitário e em harmonia com a natureza, inspirado em povos indígenas de Abya Yala, protagonizado pelos chamados feminismos comunitários (Rita Segato, Julieta Paredes).

Gayatri C. Spivak (1987), de origem bengali, e referência incontornável dos estudos pós-coloniais na Ásia, expande o paradigma da interseccionalidade à posição das mulheres na geopolítica global e no sistema internacional do trabalho capitalista, num sentido transnacionalista. Identifica as mulheres pobres do Terceiro Mundo como as subalternas entre os subalternos. No artigo fundacional “Can the subaltern speak?”, constata que a fala das subalternas e a forma como formulam a sua resistência, em diferentes linguagens, não será escutada sem uma nova forma de definição do poder, que parta delas mesmas. 

Na América do Sul, a argentina Maria Lugones (2008) propõe um feminismo decolonial, mostrando o conceito de gênero como instrumento da colonialidade, ao serviço do capitalismo na destruição de mundos com ontologias, cosmologias, línguas e estruturas sociais, econômicas e políticas diferentes, não sexuadas. Lugones quer descobrir o “não-moderno”, resistências entendidas como formação de comunidades e a transmissão cotidiana de práticas de vida, valores, ontologias e espaços-tempo, em que a vida e o bem-viver se sobrepõem às lógicas capitalistas.

Em África, os feminismos, nomeadamente os que se afirmam como radicais, protagonizados, entre outras, por Patricia McFadden, de Eswatini, procuram refletir os desafios que se colocam às respetivas sociedades, depois da desilusão dos projetos de independência dos múltiplos países, no que diz respeito aos papéis sociais das mulheres. Situam as respostas feministas num quadro transnacionalista fortemente associado ao ativismo de base, em forte oposição ao capitalismo global, aos militarismos e aos extrativismos agressivos, identificados como causa principal das opressões e violências exercidas sobre as mulheres e meninas.

Catarina Caldeira Martins