A geopolítica clássica foi uma ciência do Império: cartografava o mundo para dominá-lo, naturalizando a chamada “expansão europeia” como destino. Na Antropocênica, a geopolítica deixa de ser apenas o jogo dos Estados e das grandes potências para incluir a distribuição desigual do colapso ambiental. A subida do nível do mar, a desertificação e os eventos climáticos extremos não atingem todos igualmente: populações historicamente subalternizadas, pequenas ilhas, deltas e costas do Sul Global pagam o preço do carbono emitido pelo Norte industrializado. A geopolítica da Antropocênica é, portanto, uma geopolítica dos sacrifícios: quem emite, quem sofre, quem migra, quem morre. As fronteiras tornam-se tecnologias de gestão de humanos excedentários — os chamados “refugiados climáticos”, ainda sem estatuto jurídico consolidado. E os antigos centros imperiais transformam-se em fortalezas que regulam à entrada os corpos que o próprio sistema deslocou. Neste quadro, a geopolítica não pode ignorar a ecologia, e a ecologia não pode ignorar a herança colonial.
Odair Barros-Varela