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Durante muito tempo chamados equivocadamente de “Índios”, os povos indígenas, originários deste lugar chamado Brasil — e de muitos outros lugares, em todos os continentes habitados de nosso Planeta — demoraram séculos para serem definidos com sua real dimensão e importância, de forma a garantir respeito e reconhecimento. São hoje definidos como os povos que mantiveram a continuidade histórica de suas formas de organização e pensamento anteriores à colonização que resultou na invasão de seus territórios originais.

Eles se distinguem do Estado que se formou à força sobre seus lugares de ocupação ancestral e buscam proteger, conservar e transmitir às futuras gerações seus territórios físicos e simbólicos, o patrimônio cultural, sua identidade étnica. Os Indígenas, que sobreviveram bravamente às guerras de ocupação de seus territórios e se colocam no mundo de forma particular, quase em sua maioria, se autodenominam, em suas línguas maternas Povo Verdadeiro, Gente de Verdade. Assim, com a certeza de que foram criados por um ser sábio e poderoso, no início dos tempos, num local determinado, para viverem e cumprirem uma missão, em harmonia com os outros seres vivos ali criados também, como as árvores, as montanhas, os rios, os mares, os animais de todos os tamanhos e formatos e ainda os seres invisíveis.

Esses povos sabem, pelos mitos e narrativas do tempo do poder, que todos os humanos foram criados pela mesma força criadora. E que durante um período de sua jornada na Terra, todos conviveram de acordo com os ensinamentos desse criador, escutando e interagindo com o mundo ao seu redor. Mas houve um momento de ruptura, onde uma parte da humanidade escolheu outro caminho: o da exploração da Terra de forma desenfreada, da acumulação, do individualismo. Dessa forma, seguindo valores e princípios antagônicos, os povos se separaram. O Povo da Mercadoria, como o sábio Davi Kopenawa Yanomami define nossa sociedade em sua obra fundamental A Queda do Céu (2010), fez suas escolhas e passou a enxergar a Terra como recurso natural para o desenvolvimento econômico das sociedades, sem pedir licença, sem respeitar os limites, sem escutar os desejos dos outros seres, rompendo a convivência pacífica e provocando dor e violência.

Os povos originários lutam para manter seu princípio de vida coletiva, com respeito a todos os seres, e uma ligação profunda com a cosmogonia, com as narrativas tradicionais que explicam a existência de tudo e apontam os caminhos para essa convivência sadia e alegre. Estes povos cuidam e seguem cuidando de lugares sagrados onde, como dizem, a Terra descansa. Onde o nosso planeta se refaz e reinventa para seguir sua jornada. Os indígenas cuidam de florestas, mangues, rios, montanhas, desertos, savanas, áreas cobertas de gelo, de mares e vales. Até mesmo de pequenas porções da Terra espremidas dentro das grandes cidades. Cuidam dos ventos, do fogo e da água, dos humores de todos os seres, cantando e dançando, fazendo rituais para acalmar os espíritos, para segurar o céu suspenso. Mesmo que tenham seus territórios tomados e saqueados, mesmo que vejam as montanhas sendo transformadas em commodities, mesmo que os rios sejam contaminados impedindo a circulação da vida, mesmo enfrentando guerras injustas e desiguais, esses povos seguem cuidando do bem mais precioso que receberam: o espírito da criação.

E eles, apesar de todas as perdas e dores, tentam fazer os seus irmãos que seguiram outros caminhos entenderem a importância de cuidar da Terra, nossa única casa comum. Tarefa possível apenas com o envolvimento do coletivo, com os ouvidos atentos a todas as linguagens, com os olhos abertos à verdade, com as mãos tocando o corpo da Terra e sentindo sua vibração e força.

Os povos que se chamam a si próprios como Gente de Verdade, são os A´uwê Uptabi (Xavante), os Boe (Bororo) e outros mais entre as 300 etnias indígenas no Brasil. Os Sami (povo indígena da Noruega, Finlândia, Suécia e Rússia), os Inuit (Alasca), os Ainu (Japão), os Hopi (EUA), os Mapuche (Argentina e Chile), os San (África do Sul). Só para citar algumas destas culturas que resistem, em todos os cantos do mundo, e seguem cantando e dançando para manter suspenso o céu.

O modo de enxergar e estar no mundo proposto pelos indígenas está, mais do que nunca, ameaçado nesses tempos antropocênicos desvairados e o não respeito a esses povos, territórios, saberes e patrimônio afetam de maneira direta a todos nós, mesmo que fechemos os olhos às mudanças drásticas que põem à prova a vida humana na Terra. O Povo Verdadeiro, quando cuida de seu território, está cuidando do frágil equilíbrio da natureza e suas ações, cerimônias e cantos ajudam a manter o céu também sobre nossas cabeças. A arte indígena em sua beleza singular, as narrativas e pensamentos que hoje estão facilmente disponíveis em livros e outras mídias para o Povo da Mercadoria conhecer, podem nos ajudar a encontrar dentro de nós a voz ancestral do Povo Verdadeiro que já fomos um dia. E assim, sensibilizados e conectados novamente, podemos ser aliados na luta das gentes indígenas por suas vidas e pela manutenção deste planeta azul que dança no universo.

Angela Pappiani