Ainda criança, com 7 anos, fui capturada pelo infinito a partir de um convite, silencioso e subjetivo, feito pelo maior livro da enciclopédia de minha casa — o atlas astronômico. Desse encontro, o universo apresentou-me o infinito através de seus limites incognoscíveis.
Para a matemática, infinito é a ideia de um número ao qual sempre podemos somar mais um e mais um e mais um... e ele sempre seguirá aumentando, i n f i n i t a m e n t e ... ou, o todo que podemos dividir e dividir e dividir e, as partes divididas, sempre podem — em teoria — ser divididas, i n f i n i t a m e n t e ... a caminho de sua infinitesimal parte. Isso, é a poética da matemática que, ao carecer explicar números ou dimensões, inalcançáveis, se valeu do conceito de infinito para ilustrá-los e dessa ideia-conceito, outras esferas do conhecimento também se valem, usando o infinito para definir — ou ilustrar —, inúmeras situações onde não podemos comprovar seus limites.
Em termos conceituais, podemos dizer que o infinito é o inatingível, o eterno, o ilimitado, o imortal, o inalcançável... Nesse sentido, poderíamos pensar que o infinito seria a borda, ainda desconhecida, do cosmos que nos circunda ou o fundo mais profundo de nosso eu inconsciente. A infinitesimal parte que nos compõe ou a totalidade que nos envolve.
Também podemos pensar que o infinito compreende o fim de algo que dá origem ao começo de outras tantas possibilidades, como novos mundos, novos universos, novos ciclos, novas formas de ser e estar na vida, além de novas vidas que surgem e desaparecem num sem fim de começos e fins. Ou, como diria Nêgo Bispo, num eterno “começo-meio-começo” onde o fim não existe porque ele é apenas uma das etapas da existência dentro do interminável fluir da vida.
Hoje, décadas depois do meu primeiro contato com o infinito, me aproximo da antropocênica — o teatro do mundo em constante transformação — esse outro infinito que, justamente por estar nesse estado ad æternum onde nada é estático, ela é o começo-meio-começo das encenações humanas no palco da vida, em íntima relação entre tudo que navega o universo a bordo desse mágico e improvável planeta água, chamado Terra.
A partir da revolução industrial e, por consequência, do liberalismo, a idéia de ser a Terra uma fonte infinita de recursos, passou a ser usada para autorizar os detentores do poder econômico e político, a explorar a terra e seus bens naturais como recursos intermináveis.
Como consequência dessa lógica reforçada e estimulada pelo capitalismo, cria-se um ciclo infinito e insustentável, que formulou — e mantém — a seguinte sentença: produzir mais... para acumular mais bens e lucros... para investir mais em produção... para contratar mais gente... que terá mais acesso à renda e, portanto, vai consumir mais... voltando ao começo da sentença, mesmo que isso não represente aumento de qualidade de vida para a grande maioria da humanidade. Resultado: mais da metade da riqueza do planeta nas mãos de algumas dezenas de pessoas, as quais forjam não só seres humanos exaustos e adoecidos, como promovem a exaustão dos recursos naturais a partir de sua extração indiscriminada.
Em contraposição à (i)lógica capitalista, infinitas pessoas lutam para trazer luz às consciências adormecidas e alienadas do homem econômico. Uma delas é Elinor Ostrorn, a primeira mulher a receber o Nobel de Economia. Elinor estudou gestão dos bens comuns em comunidades com recursos autogeridos. Nesses contextos, ela descobriu que os recursos não findam, não porque são infinitos ou intermináveis, mas porque não são usados até se esgotarem. Os membros dessas comunidades, agindo em prol do bem comum, fazem uma gestão sustentável dos recursos, conscientes de sua finitude. Com isso nasce outra lógica: a da economia colaborativa onde o paradigma da abundância é a base das relações, entendendo que o essencial para sobrevivência e saúde de todos os seres vivos, organismos e ecossistemas, está disponível para ser usufruído de forma responsável, não urgente e não frívola. Ou seja, tem! E tem para todo mundo, mas não de maneira infinita.
Num mundo de economia colaborativa, o infinito poderia ser a terra sem fronteiras — um palco sem limites — onde a vida de todas as espécies e raças, poderiam atuar e interagir através — e com — esse palco, de forma livre e transrelacional, num interminável de arranjos e experimentações e descobertas de novas formas de ser e estar na vida. Contudo essa antropocênica, cada vez mais, vem sendo compartimentada e apropriada por minorias que ditam em que lugar e como atores desse espetáculo atuarão, criando fragmentações artificiais e amorfas, onde o sofrimento e a dor e a penúria... ganham protagonismo imperativo e segregador, delegando às poesias onde a vida habita e onde ela é mestra de um transitar fluido de inter-relações, nem a mais esmaecida coadjuvância.
Entretanto, ainda que muitas dessas relações venham se tornando a cada dia, mais e mais insustentáveis e suicidas, esses são os atuais atos dessa antropocênica.
Mas... é possível sonhar! É urgente sonhar! Sonhar que os infinitos de nossa existência — e da existência de tudo que habita a Terra — pudessem voltar a seguir seus ciclos de começo-meio-começo.
Em Ailton Krenak, um de seus muitos infinitos se apresenta a partir do entendimento que diz que “toda floresta carrega em si um devir cidade, assim como toda cidade carrega em si um devir floresta”, como se de uma nascesse a outra, sucessivamente... E desse devir floresta que novos atos da antropocênica deveriam mirar. Não para restaurar todas as florestas, tampouco para destruir todas as cidades, mas para aprender com a lógica dos ciclos naturais, as infinitas maneiras de dançar com todas e todos atores desse palco, de forma sensível, respeitosa, num tempo sem tempo e sem fim, apenas com meios e recomeços, em busca da vivência desse conceito tão complexo que é a sustentabilidade.
Diante dos conceitos, poesias, vislumbres, devires... talvez o infinito possa ser o ato, incansável e persistente, de esperançar em ação, por uma antropocênica que encene e seja palco de tempos sem fragmentações, sem tiranos, sem segregações e artificialidades, onde a fluidez dos ritmos vivos volte a ser regido pelo metrônomo da existência, trazendo de volta o pulsar de compassos harmônicos e naturais, através da vida sendo restabelecida em ciclos saudáveis, regenerativos e... infinitos.
Virgínia Stela Bueno Lambert