Instante*   |   ES  /  EN

Pensar o instante pode levar o sujeito a pirar, mas até por isso talvez valha a pena, pirar um pouco nunca fez mal a ninguém. Entre ir ao zoológico com a família dar pipoca aos macacos, como dizia Raúl Seixas, ou passar uma manhã a pensar o instante, nem que seja para dar aqui e ali algum uso aos 10% da nossa cabeça animal, hoje chamada “inteligência natural” em relação à “artificial”, optamos pelo segundo (e em nome, também, dos loucos, com os seus delírios, que muito bom uso fazem das suas cabeças animais, até bom demais). Passemos então essa manhã noutro zoológico, o do instante.

Parece-me que a primeira coisa a dizer é que o instante existindo não existe, e não existindo de facto existe. São assim as coisas ditas pela cabeça animal. Mas o que ela quer dizer, neste caso, nem é assim tão complicado, ou pensando bem (ou mal, tanto faz), talvez até seja: ela diz que o instante de que geralmente se pensa é um instante que não existe, e outro instante, de que geralmente não se pensa, é o instante que existe. 

É preciso dar realidade ao instante, tanto material como espiritual. Por realidade quero dizer imanência, tirá-lo da sua transcendência abstracta, e introduzi-lo na vida. Que transcendência é esta? Está por todos os lados, mesmo não tendo lados ou realidade alguma, pelo menos uma realidade realmente real. Falo do instante que supomos existir quando dizemos que se passa de um instante a outro, ou que alguma coisa se passou, aconteceu, estava ali ou aqui desta ou daquela maneira neste ou naquele instante. Dito assim, compreende-se o problema: afinal, o que há entre instantes? Como se passa de um instante a outro? Que espargata impossível é esta, a do instante?

Ora, não se passa, sendo essa a transcendência do instante, a de transcender o próprio tempo. E a este respeito, foi Zenão de Eleia quem melhor descreveu os paradoxos deste tempo sem tempo que é o instante. Na sua simplicidade, ele traçou a sua linha, com dois pontos A e B. Depois dividiu a distância entre um ponto e outro a metade, e essa metade a outra metade, a metade que restou a outra, e assim sucessivamente até já não ser possível, com tantos cortes, metades de metades de metades, atravessar o espaço de A a B (“dicotomia”, que dá nome a este paradoxo, em grego quer dizer cortar em duas partes). Do ponto de vista do instante, seria como se, existindo um abismo entre instantes, já não fosse possível passar de um a outro, o próprio tempo já não conseguindo passar de um instante a outro. 

Nem é preciso usar assim tanto os 10% da inteligência animal para se perceber que alguma coisa aqui não bate certo. E o que não bate certo é pensar-se o tempo em termos espaciais. Esta é a conclusão extraordinária, na origem da sua filosofia, de um filósofo não menos extraordinário: Henri Bergson. O tempo não se “dicotomiza” tal como o espaço: ele é, na sua natureza, uma continuidade, como um rio, e não se corta um rio como se traça uma linha na areia. Talvez a olhar o rio da sua margem se possa fixar um ponto nele; mas isso é o olho que fixa o ponto. Entrando no rio, este ponto se esvai no mesmo movimento do fluir do rio. E no movimento, o momento presente jamais é um instante, mas o passar do próprio tempo, tal como o fluir do rio. Neste passar, fluir, o presente é tanto passado como presente, e por isso mesmo, uma abertura ao presente por vir, que se fará presente com o passar do anterior, e que será, também ele, o passado que se contrai e o futuro que se abre. É este passar que o instante transcende, que não conhece. Ele também o instante da inteligência artificial.

Quer isto dizer que não existe? É evidente que não, já o dissemos: o instante existe, mas existindo, existe onde deveria existir, no tempo, o que passa, e não no espaço, onde nem de A a B se consegue ir. Em relação ao tempo que passa, o instante é o tempo que se abre entre os seus momentos, nos interstícios do seu fluir. É um entre-tempo. É no interior deste tempo, nos seus entre-tempos, que se faz o instante, mas até por isso supõe-se uma outra lógica temporal. Qual será? Como sairá o instante da margem, do espaço, para entrar no rio? Ser levado no tempo, pelo rio, e ainda assim encontrar-se nele, fazer-se enquanto instante que é?

Esta é uma história muito bonita, da qual aqui só faremos o esboço. Entrando no rio, no tempo, trêmulo, a nesga por onde o instante entra é a brechazinha que o tempo, no seu passar, deixa entreaberta. Pois reparem: o que o passar do tempo pressupõe, na sua origem, é a sua própria dispersão, ou seja, o presente onde o passado não contrai no presente, tornando-se contemporâneo, nem se abre para o futuro, para o presente que vem. O que dizer de um presente assim? Que nada contrai do passado? Ora, se nada contrai, se nada do passado fica, ter-se-à de supor que, neste estado pelo menos, não há fluir, não há passar, que o rio não se formou. O que resta? Um estado de variabilidade infinita onde o aparecer e o desaparecer coincidem, nada do aparecer sendo retido no momento presente. E qual é o tempo da coincidência entre o aparecer e o desaparecer? Se usarmos um tempo para o descrever, o que nos vem imediatamente à boca? Não será que o aparecer e o desaparecer aparecem e desaparecem no mesmo instante? Não será isso que se diz: que é no instante que coincide o aparecer e o desaparecer? Também não é preciso muito para se saber que a realidade onde nada permanece, ou que o que permanece é uma dispersão incessante, e a variabilidade infinita dessa dispersão, é o caos. 

E agora? E agora vem a parte verdadeiramente bonita, onde o instante, a partir desta fonte, do caos, constitui-se na sua realidade própria, entre os tempos do fluir do rio, do passar do tempo. E como o faz?

Ora — outra vez este ora — fazendo-se no rio. Mas como será possível? Reparem, desta vez, no que o próprio fluir pressupõe: se o presente supõe a contemporaneidade do passado para passar, tanto quanto uma abertura ao presente seguinte, o que se supõe é a cisão entre passado e futuro como operação fundamental do tempo. O tempo só passa, portanto, cindindo-se. Como é que o instante ouve isto? Já cego, como música para os seus ouvidos. 

“E se”, pergunta o instante, “este aparecer e desaparecer não for o meu destino final? Poderei fazer-me no interior da cisão? E isto no sentido em que, para além do tempo de uma coincidência entre o aparecer e o desaparecer, tempo do caos, poder ser o tempo ele mesmo da cisão? Eu mesmo, instante, o tempo da origem do próprio tempo, do rio? Onde o presente, não no seu passar, mas em mim, no instante, se cinde incessantemente em duas direcções opostas, uma linha que vai para o passado, outra que vai para o futuro? Ou seja, onde eu, o instante, me constituo como contorno do tempo, no seu passar? Inteiramente imanente ao tempo? Entre duas temporalidades absolutas, o sempre já aí, o passado puro, e o eternamente por vir, o futuro puro?” Não seria este tempo entre-tempos o tempo do instante? 

Voltemos ao Raúl, com a sua cabeça animal: afinal de contas, o que acontece a esta cabeça do ponto de vista desta historinha do instante? Diria que a cabeça se parte um pouquinho, mas no sentido de quem abre a janela num quarto abafado para entrar um ar. É talvez com uma cabeça destas, um pouco partida, que a dita inteligência natural, a da cabeça animal, será capaz de apreender (e de aprender) o que parece teimar em negar, ou desvalorizar cada vez que assume a inteligência artificial como superior à sua, desvitalizando-se a si mesma e a própria vida, numa depressão gritante (mas muda) do élan vital: que nela sobrevive, a custo certamente (nada para esta cabeça animal é linear), e através do tempo, do seu passar, dos seus entre-tempos, o que a inteligência artificial, por mais “generativa”, “alucinada” que seja, jamais gerará, apropriará — o instante.

Filipe Ferreira

* Homenagem a Heráclito de Éfeso que, como de sabe, disse que não se entra no mesmo rio duas vezes.