Lugar | ES / EN
Palavra comum, com um amplo leque de significados (uma posição, a localização num sítio, a colocação de um objeto num certo espaço, um posto de observação…), Lugar ganhou recentemente um estatuto relevante entre as áreas de investigação, destacando-se como esquema operatório para estudar e analisar múltiplos domínios da vida contemporânea, tanto coletivos quanto individuais.
Ao contrário do uso impreciso da linguagem corrente, no léxico técnico o termo “lugar” encerra a correlação de dois aspectos indissociáveis: um objetivo, outro subjetivo. Pelo lado objetivo referem-se às propriedades de cada lugar, particularidades essas que o diferenciam enquanto singular e único de todos os outros. O lado subjetivo sublinha que as características distintivas dos lugares que nos envolvem e nos quais existimos não nos são indiferentes; são contextos da realidade que modelam afetiva, mental e culturalmente a existência de indivíduos e grupos sociais. Entre as obras pioneiras que examinaram modos desta articulação mútua entre diferentes ambientes e diferentes culturas, destacam-se: Genius Loci: Towards a Phenomenology of Architecture (1979) do arquiteto Norberg-Schulz e Topophilia: A Study of Environmental Perception, Attitudes, and Values (1990) do geógrafo Yi-Fu Tuan.
Se procurou reforçar o primado da estabilidade espacial sobre curso ininterrupto da temporalidade, o conceito de Lugar demarca-se das teorias científicas, abstratas, genéricas e mensuráveis de espaço, sejam a cosmologia, a física ou a geometria. Como conceito sintético entendem-se os lugares como espaços experienciados, inseridos no mundo da vida, efetivamente ocupados, melhor dizendo, habitados no aqui e agora por sujeitos corporizados e dotados de sensibilidade, permeáveis e receptivos aos estímulos positivos e às influências negativas dos respectivos contextos.
Subjacente ao movimento do pensamento que nas últimas décadas tem vindo a concentrar o interesse pelos Estudos do Lugar — praticados por diversas disciplinas, tradicionalmente objetivistas (geografia, arquitetura e urbanismo) ou subjetivistas (pedagogia, psicologia, psiquiatria) —, estará uma reação ao destino sombrio que paira sobre o homem contemporâneo: um ser cada vez mais desenraizado, privado de terra natal, de sentimentos de filiação e de pertença. O lugar ganhou assim um estatuto ontológico enquanto determinação do ser e fator identitário da personalidade.
Sem-lugar diz a condição do indivíduo perdido no anonimato das grandes cidades massificadas, também elas áridas extensões desumanizadas pela proliferação de “não-lugares”, como em Marc Augé, Non-lieux: Introduction à une Anthropologie de la Surmodernité (1992). Sem-lugar diz também a uniformização da superfície terrestre a nível global, desnaturalizada pela privação da presença regeneradora de elementos vivos. Sem-lugar é ainda, mais dramaticamente, o corte abrupto com pontos de orientação seguros, laços culturais e familiares, uma situação apátrida que condena populações inteiras a deslocações forçadas, multiplicando migrações de refugiados des-localizados para lugares estranhos.
Se aceitarmos o diagnóstico da crise da cultura moderna formulado no início do séc. XX por Georg Simmel a propósito do avanço da técnica, e a imagem do homem como “o ser que separa para voltar a ligar”, torna-se claro que a alternância entre análise e síntese caracteriza também as formas de ver o mundo dominantes em cada época. O Lugar tornou-se uma categoria de compensação que visa reunificar aspectos de um mundo profundamente segmentado e recuperar componentes essenciais de uma antropologia integral tantas vezes desvalorizados. Inserindo-se no movimento do Spatial Turn nas ciências sociais e humanas, a recente Filosofia do Lugar (Philosophy of Place), formou uma disciplina filosófica que, apresentando-se embora como nova, é no fundo uma recomposição, uma reorientação de diversas linhas de pensamento já praticadas. O carácter filosófico desta abordagem é-lhe conferido pelo método: pela Fenomenologia (descrever correlações subjeto-objetivas, experiências vividas pelo ser humano em circunstância) e a Hermenêutica (ler o lugar como um texto que encerra sentidos manifestos e outros ocultos). Liga-se-lhe a perspectiva existencial: a visão do humano como um ser lançado ao mundo, marcado pela finitude e a contingência do existir. Veja-se de Jeff Malpas, o principal representante desta disciplina, From Hermeneutics to Topology: Place, Space and Hermeneutics (2017).
Não obstante a disseminação que está atualmente a ter, a Filosofia do Lugar, pela convergência conceitualmente indefinida dado o âmbito multidisciplinar dos contributos, não está imune ao risco de ecletismo. Acresce a circularidade em que necessariamente se coloca: procurando fugir à universalidade de princípios e estruturas (conceitos de máxima extensão, logo, de menor compreensão), segue a via inversa: recorre à descrição / explicitação intensiva de singularidades, que, pelo mínimo de extensão, permitem o máximo de compreensão.
A visão do mundo daqui resultante não escapa, por um lado, a uma certa ambiguidade: tudo é ou pode ser considerado lugar; por outro, à descontinuidade do real: a hipotética conjunção de todos os singulares (partes delimitadas) nunca permitiria chegar ao todo. Uma via mais consistente de conciliar local e global oferece-a a Filosofia da Paisagem. Também as paisagens são lugares, mas que transcendem os seus limites. O lugar remete para si mesmo, a paisagem para além dela. A relação horizontal sujeito-objeto da Fenomenologia é ampliada pela verticalidade da profundidade e da altura que transcende o mundo humano e abre cada paisagem finita à infinita temporalidade da natureza, como em Rosario Assunto, Il Paesaggio e l’Estetica (1973).
Adriana Veríssimo Serrão