Mineração  |   ES  /  EN

Talvez, há doze mil anos, a inspiração para minerar e a metalurgia surgiu do achado de meteoritos de ferro, encontrados ao acaso. Eles são relíquias do tempo profundo da Terra e do Cosmos. Daí a ideia de que mineração e astronomia, caverna e cume, estariam associadas entre si. Essa narrativa mítica foi substituída por uma nova racionalidade: a rede transcontinental de jazidas minerais e a linguagem técnica com que minerais e metais foram objetivados.

Desde as culturas do Velho Mundo, procurava-se decodificar a escrita cifrada do submundo e aquela dos céus. A altura sublime e a profundeza escura eram tidas como esferas do mistério, nas quais se ocultavam os enigmas da Natureza, mas também o insondável do ser humano. Hoje, quando a natureza parece estar esclarecida, somente a arte ainda poderia, porventura, manter viva a lembrança dos mistérios outrora encontrados em cavernas, metais, meteoritos ou estrelas. Dois fatores importantes da cultura técnica — navegação e mineração —  dedicam-se ao enfrentamento do espaço profundo.

Uma técnica de sistemas precoce foi a mina. Nela, reuniam-se artesanato e mecânica, hidráulica e pneumática, metalurgia e mineralogia. Até o Renascimento, a atividade mineira foi um trabalho prometeico sobre os perigos e as promessas da Terra. Os minérios e os minerais testemunhavam as magnalia dei. A feminilidade da Terra incitava à sua sacralização. Ainda no cristianismo, algumas santas (como Santa Ana), protegiam a mineração, embora esta, em si, fosse um tabu para as mulheres.

Construir não é privilégio humano. A construção evoluiu desde moradias primitivas até fortificações imponentes, cidades, palácios e edifícios sacros, arranha-céus, instalações de infraestrutura, transporte e indústria. A mineração também faz parte disso. Os primeiros seres humanos certamente estavam atentos às construções dos animais. Abelhas, cupins, formigas constroem estruturas que, desde a Antiguidade, são chamadas de "Estados". Castores constroem castelos e represas. Pássaros erguem ninhos engenhosos. Aranhas tecem redes para caçar.

Para os seres humanos, as técnicas de rede tornaram-se modelo para organizações socioespaciais, como as que surgiram na mineração. Eram necessárias estruturas de transporte, como as que surgiram na fundição e para transportar minérios ou carvão, desde o Neolítico. Isso se tornou tão elementar para a autocompreensão da Antiguidade que Hesíodo, em Ἔργα καὶ Ἡμέραι / Os Trabalhos e os Dias (anterior a 700 a.e.c.), ritmava a história do mundo por meio dos metais da mineração.

Portanto, não foi por acaso que quase todos os filósofos da Natureza declararam os metais como marcadores das quatro grandes épocas da cultura: a Idade do Ouro, passando pela de Prata e de Bronze, até a Idade do Ferro, a história estava lançada num arco descendente de infortúnio, por exemplo, em Metamorphoses, Livro I, versos 72 a 162, de Ovídio (I a.e.c.). A arte da mineração permaneceu ambivalente: impulsionou o progresso, mas também a "tragédia da cultura", como expôs Georg Simmel em Der Begriff und die Tragödie der Kultur / O Conceito e a Tragédia da Cultura (1911). Muitas teorias da decadência partem dos metais. Sob o signo destes, a história é abandonada por Deus. Guerra, violência, penúria, trabalho, alienação entre gerações e sexos, a decadência do direito e da justiça, da fidelidade e do amor, passam a determinar a história. A lei do mais forte e violência, rivalidade, traição, inveja e frieza reinam: na crítica da cultura, esses são os traços característicos da Idade do Ferro. O dom prometeico da mineração contém a capacidade de fundar a cultura, mas é também a fonte da desgraça.

Quem somos nós como estirpe prometeica? Somos terrigenus, assim afirmava a antropologia antiga. Provimos daquilo que está sob a superfície da terra e dela brotamos. Segundo essa concepção, a terra é o fundamento radical do nosso ser. Isso vale para muitas culturas. Dentro dos quatro elementos — fogo, água, terra, ar —, a terra é o nosso fundamento primordial.

“Submundos” da terra firme são, antes de tudo, as cavernas, que foram utilizadas como espaços de moradia e abrigo. Isso é atestado pela paleoantropologia, como nos estudos exemplares de Leroi-Gourhan. As cavernas possuem uma mitologia própria: a humanidade abriu caminho das cavernas até a luz. Em Prometeu Acorrentado, peça de Ésquilo (V a.e.c.), o protagonista liberta a humanidade pré-histórica de sua existência cavernícola primitiva, ensinando-lhe as técnicas da cultura. Fundamento e abismo da vida humana estão interligados. As cavernas são o fundamento sem história daquilo que é histórico.

Nas culturas antigas, técnica, mitologia e religião não eram separadas. Quem pratica a agricultura ou a arte da mineração, quem desce ao interior da montanha para resgatar tesouros ocultos, quem instala locais de culto em cavernas, esse alguém se move no interior de um organismo divino. E comete a quebra de um tabu. Por isso, eram necessários rituais de expiação, pactos conciliatórios com os deuses, pois penetrar no interior da Terra significa ferir o corpo da Grande Mãe, Gaia.

Esse entendimento ritual com as divindades vale também para o cristianismo. O ofício da mineração não foi, de modo algum, apenas uma técnica secular da era moderna. O que hoje separamos — a cultura simbólica de um lado, a cultura técnica de outro — eram, nas culturas antigas, duas faces da mesma moeda. Até a era moderna, vale o seguinte: quando praticamos a mineração, despedaçamos o corpo da Mãe — uma espécie de matricídio, como em Paulus Niavis, Judicium Jovis ad quod mortalis homo a terra tractus parricidii accusatus est / Julgamento de Júpiter, perante o qual um homem mortal, arrancado das entranhas da Terra, é acusado de parricídio (c. 1495). Em contrapartida, a terra também contém algo mortífero. Tudo se torna pó, um amontoado de moléculas. Pois fomos tirados da terra e à terra retornaremos (Gênesis 3,19; Eclesiastes 3,20 e 12,7; cf. João 3,31). A terra contém tanto o vir a ser quanto a morte. A Natureza foi vivenciada de modo ambíguo: era cruel e benevolente, criadora e destruidora, profana e sagrada. Também na modernidade, nossa relação com a Natureza é extremamente ambivalente.

Não esqueçamos que todos os testemunhos das culturas antigas e da evolução estavam ou estão sob a terra. Eles precisam ser desenterrados, identificados, restaurados, contextualizados. Não se pratica apenas a mineração das substâncias, mas também uma mineração da cultura. Os vestígios nas profundezas da Terra são os testemunhos do tempo profundo geo-histórico. O interior da Terra é um arquivo imenso; como diz Alain Schnapp em La Conquête du Passé: aux origines de l'archéologie / A Conquista do Passado: as origens da arqueologia (1993), em suas palavras, “a memória precisa da terra para sobreviver”. Praticamos a mineração para nos apropriarmos de substâncias valiosas, mas também para nos certificarmos de nossa história. Nos abismos da Terra e do Tempo, é possível descobrir o fundamento do ser histórico.

Ao concentrar-se no que cresce, no que é construído e povoado apenas na superfície da Terra, subestimam-se as arquiteturas subterrâneas: as gigantescas minas, as construções de túneis, a exploração das profundezas marinhas, a tecnologia de submarinos e mergulho; mas também os submundos urbanos, os sistemas de esgoto, as redes de abastecimento e de informação, as instalações geotérmicas, as vias subterrâneas de transporte ferroviário e rodoviário, os dutos transregionais e as vias de cabos submarinos; sem esquecer as centrais de governo, as instalações militares de bunkers e as fábricas subterrâneas da indústria bélica. Também os depósitos, armazéns e arquivos relevantes são instalados sob a terra: tanto os depósitos de lixo nuclear quanto estoques de alimentos, bancos de dados, testemunhos da cultura e da arte etc.

Suspeita-se que a fusão entre poder político, capital financeiro, infraestruturas e tecnologia capitalista, ocorrida no Renascimento, representa apenas um estágio intermediário na exploração do submundo.

Já os românticos transformaram o mundo interior subterrâneo da Terra numa topografia do inconsciente. Pode-se descer ao próprio interior como se desce em poços e galerias de mina, deparando-se com um mundo não descoberto, novo e antiquíssimo, estranho e familiar, um cenário oculto do inconsciente e das fantasias soterradas: a própria mina do Eu. Dessa escuridão, a luz da razão deveria conduzir para fora. Pensemos na Alegoria da Caverna de Platão, em sua obra Πολιτεία / Politeia, em latim De Republica (IV a.e.c.). Para esse sistema de cavernas, o princípio do fundamento se aplica melhor do que a racionalidade da superfície. Nada existe sem fundamento, nulla est sine ratione, assim reza "o princípio do fundamento", na Monadologia de Leibniz (1714). O fundamento é aquilo que subjaz e serve de base, ao passo que ὑπόστασις / hypostasis designa o que está por baixo, a base pela qual coisas e seres vivos alcançam sua identidade (sua οὐσία / ousia). Mas na experiência moderna, o princípio do fundamento conduz ao abismal, ao abandono e à angústia. Tudo poderia ser sem fundamento. Seríamos, então, perdidos e abandonados da Terra.

Catástrofes lembram os deuses da morte, que são os "senhores das profundezas" (Ovídio, em Metamorphoses). Elas acentuam a dependência de toda cultura em relação à terra, ao solo e ao chão. O ser humano é um terráqueo. Mas essa Terra abriga, em suas profundezas, forças temíveis, que fornecem as metáforas para o terrível. Não por acaso, Inferno e Hades são submundos. Assim, o subterrâneo é também o inquietante e o que causa temor. A topografia cultural é codificada axiologicamente em seu eixo espacial vertical: "embaixo" é o inferior, o desolado, o feio, o pulsional e o que causa medo (mas também os tesouros ocultos); "em cima" é o luminoso, o bom, o belo, o verdadeiro, o sublime (mas também o vácuo aterrorizante do espaço cósmico). Essa diferença diretriz rege a ordem simbólica de nossa cultura. Poucos atravessaram essa fenda entre o submundo e o mundo superior e sobreviveram, como Odisseu, Orfeu, Jesus ou Virgílio, na Divina Comédia de Dante.

Hartmut Böhme