Ocidente   |   ES  /  EN

O conceito do ‘Ocidente’ é complicado. Embora pareça implicar uma orientação geográfica, uma rápida olhada nos locais considerados parte do ‘Ocidente’ — Europa, América do Norte, Austrália, Nova Zelândia e, em algumas interpretações, América do Sul — contradiz esta visão. Então, o que significa o Ocidente? Originalmente, se pensava que o Ocidente era simplesmente o lugar onde o sol se põe. Devido a isto, algumas sociedades antigas, como os egípcios e os gregos, localizavam as suas moradas do além-vida a Oeste, situadas nas margens da sua geografia conhecida. Isto era percebido como o fim do mundo terrestre. Esta localização espacial no fim do mundo, o qual ainda não era imaginado como uma esfera, criou o conceito de uma fronteira que delimitava o mundo de acordo com o nascer e o pôr do sol. O conceito foi adotado pelo Império Romano, que se vangloriava de ser o único império a governar territórios desde o nascer até ao pôr do sol. Este lema antigo foi adoptado e amplificado pelo Império Habsburgo. Sob o imperador Carlos V, o império afirmava que nos seus domínios “o sol nunca se punha”, dado que os seus territórios se estendiam da Europa às Américas. Quando o império atingiu o seu auge, o centro de gravidade na Europa, o chamado Velho Mundo, tinha-se deslocado primeiramente da Mesopotâmia e Anatolia, e depois do Mediterrâneo Oriental, para a Europa Ocidental, que, operando sob os véus ideológicos da hetero-especificação, de se definir em oposição aos outros (ou seja, contra o Império Romano do Oriente, que agora é designado como Bizantino), determinou que ele próprio constituía o Ocidente, definindo-se em oposição às culturas do Oriente, muito mais antigas e outrora veneráveis. 

Assim, tomando o exemplo da Antiguidade e do período medieval, nos tempos modernos o ‘Ocidente’ passou a designar a Europa Ocidental e todas as outras regiões do mundo onde, devido à conquista e colonização, ou outras formas de influência e controle substancial, os aspetos culturais e econômicos, junto com os sistemas de valores, das sociedades da Europa Ocidental, se tornaram características definidoras dos estados oficiais que foram estabelecidos, como nas Américas, na Austrália e na Nova Zelândia. Precisamente por causa desta evolução histórica do termo, os países e nações da Europa que não surgiram deste mesmo nexo cultural têm sido sempre colocados de forma ambivalente sob o termo ‘Ocidente’. Este é o caso de todos os estados dos Balcãs que estiveram sob o Império Otomano (o ‘Oriente’) durante séculos e da grande parte da Europa do Leste, apesar de estarem localizados tanto na Europa como a oeste das grandes civilizações da Antiguidade.

Ao longo do tempo, e com o aumento do poder de certos estados ocidentais e do seus próprios sistemas de valores, o Ocidente tornou-se em grande parte sinônimo de capitalismo, de mercado livre, e de constituições democráticas (ou pseudo-democráticas), de legislação para os direitos humanos e civis, liberdades religiosas, mas também de uma mentalidade que privilegia o individualismo sobre as relações comunitárias. Atualmente, o Ocidentalismo está sendo reinventado como uma arma ideológica muito mais específica do que era antes: aprovando a ‘Antiguidade Clássica’ dos gregos e romanos, foi reembalado como a cultura progressista das culturas do mundo: um defensor da razão, moderação, progresso, ética secular ou pelo menos independência da religião em relação ao poder político, direitos políticos e humanos, e iniciativas legislativas para a paz internacional. 

Levando esta crença no progresso ao máximo, alguns dos proponentes mais extremistas do Ocidentalismo agora consideram-no um jogo de soma zero, onde a convivência com outras sociedades não é possível ou sequer desejável, acabando assim por propagar o mesmo tipo de mentalidades que levaram às conquistas e à colonização em séculos anteriores. E, apesar das conquistas reconhecidas das sociedades ocidentais (por exemplo, a legislação sobre direitos civis e políticos), muitas das classes políticas que hoje representam países que se consideram pertencentes ao Ocidente continuam a falhar em muitos dos ideais que o conceito supostamente defende. Ao ter gerado um sistema onde a razão e o progresso se tornaram idênticos à busca do lucro que se autoperpetua, o conceito pode ser despido dos seus supostos valores humanitários e de progresso social para revelar a era do capitalismo de mercado livre, com, em muitos casos, apenas vestígios de credenciais democráticas.

Eleftheria Pappa