Se a paisagem pode ser lida, podemos considerá-la enquanto escritura daqueles atores que nela imprimiram suas marcas, transformando-a. A sucessão e a mudança dos atores e suas ações no tempo sobre um mesmo lugar geográfico, atuam na construção e mutação da paisagem, muitas vezes reconfigurando-a totalmente. Ainda assim, algo do passado nela sobrevive.
A palavra palimpsesto – do latim palimpsestus, a partir do grego παλίμψηστος palímpsēstos, “raspar novamente”: pálin (de novo) + psēn (raspar, esfregar) – envolve o sentido de apagamento deliberado, daí sua relação possível com as ruínas resultantes de destruição premeditada, ou mesmo de abandono.
Não se trata de sobreposição de camadas, mas sim da permanência vestigial e fragmentária de uma certa realidade, antes constituída sobre um território (suporte da escrita, da ação, da cena) e, portanto, ainda presente. Sugere a leitura dessa presença anterior no tempo presente de uma cena escrita na paisagem hoje habitada, onde antes se exerciam outras realidades sociais, culturais, econômicas, físicas, outros contextos históricos e sentidos que, de algum modo, restam como as ruínas e demais remanescentes de outrora. Expresso desta forma, o conceito contribui como recurso no estudo e no imaginário da paisagem do Antropoceno.
Milton Santos em Espaço e Método (2008) aproxima, por analogia, o estudo da paisagem à uma escavação arqueológica: “Em qualquer ponto do tempo, a paisagem consiste em camadas de formas provenientes de seus tempos pregressos, embora estes apareçam integrados ao sistema social presente, pelas funções e valores que podem ter sofrido mudanças drásticas. Desse modo as formas devem ser ‘lidas’ horizontalmente, como um sistema que representa e serve às atuais estruturas e funções. Além disso, cumpre efetuar uma leitura vertical para datar cada forma pela sua origem e delinear na paisagem as diversas acumulações ao longo da história”.
Silvio Luiz Cordeiro