Sul

Antes que uma coordenada, o Sul é uma operação cartográfica e uma condição produzida. A modernidade transformou as divisões cardeais em hierarquias e as carregou de um sentido moral, político e epistêmico. Nesse contexto, enquanto o Norte se apropriou da universalidade, da racionalidade e da centralidade, associou-se ao Sul a ideia de periferia, de particularidade, de atraso ou da reserva da alteridade. Ao mesmo tempo, essas direções tornaram-se posições políticas e econômicas, onde o Sul se converteu em natureza disponível e em território à espera de ser explorado pelo Norte. Dessa forma, a bússola deixou de ser instrumento de orientação espacial para tornar-se uma tecnologia de classificação cultural, enquanto que o mapa converteu-se em programa de dominação econômica e política.

Pensar o Sul é interrogar essas cartografias e revelar suas violências. Trata-se simplesmente de inverter o mapa —colocar o Sul acima—, mas de examinar a matriz que converteu essas direções em destino. Para além da localização geográfica, o Sul é um feixe de relações socioeconômicas estruturadas pelo endividamento, pelo desenvolvimento desigual e pela expansão do capital extrativo e financeiro. Nesse sentido, designa uma forma histórica de experiência atravessada por colonialismos —externos e internos—, pela violência política e por sucessivos processos de acumulação capitalista.

O colonialismo alterou territórios ancestrais e os transformou conceitualmente. Fixou regiões como arquétipos de alteridade ou como zonas de extração —de minerais, petróleo, gás, florestas, águas, corpos e saberes—, convertendo-as em reservas energéticas, em aterros ou em fronteiras abertas a projetos que prometem progresso enquanto destroem paisagens e vidas. Assim, pensar o Sul hoje é interrogar a distribuição desigual dos custos ecológicos da modernidade. O aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a expansão de monoculturas, salmoniculturas e fazendas terrestres e marinhas, ou as rotas que atravessam territórios indígenas, são efeitos de uma geopolítica que converteu certas latitudes em zonas de sacrifício.

Essa condição produziu uma divisão do mundo na qual o "centro" monopoliza a produção teórica enquanto a periferia oferece "casos". Em contrapartida, o Sul emergiu também como categoria crítica e como cartografia de resistência frente ao poder do Norte e sua geopolítica do conhecimento. "Pensar do Sul" significou descentrar o sujeito universal — branco, europeu, anglófono — e recuperar a potência dos saberes situados. Contudo, a fórmula não está isenta de tensões. Como observou Juan Obarrio (2013), falar "do" Sul pode implicar dirigir-se ao Norte como audiência privilegiada. Daí a necessidade de pensar "ao Sul", compreendendo que é, ao mesmo tempo, condição histórica de elaboração e objeto do pensamento, onde a teoria se gera em diálogo com as demandas públicas, os movimentos sociais e as lutas territoriais. Nessa chave, "para além do Sul", como sugere Pablo Wright (2021), convoca-se à abertura de outras orientações que transbordem as oposições binárias.

A crítica ao universalismo não consiste unicamente em disputar quem produz teoria. Consiste em questionar o pressuposto de que a Terra é um objeto inerte disponível para o cálculo. Lá onde o mapa moderno vê recursos, persistem mundos que entendem o território como relação. Lido a partir de suas experiências históricas e cosmológicas, o Sul desestabiliza essa premissa e revela que o que se apresenta como desenvolvimento é, frequentemente, espoliação. Conceitualizar o Sul não supõe, então, fixar uma identidade geográfica estável, mas desarmar as bússolas herdadas e examinar as condições históricas que produziram as hierarquias. Dessa perspectiva, o Sul é uma forma de vida e, ao mesmo tempo, uma orientação epistemológica, ou seja, uma posição crítica a partir da qual se evidenciam os limites ontológicos do projeto moderno no que diz respeito à sua separação entre natureza e cultura, à sua abstração do território e à sua confiança no crescimento infinito.

No Antropoceno — ou mais precisamente, no regime histórico que tornou possível nomeá-lo — o Sul torna-se espelho. O que aqui ocorre — derretimento, extrativismo, poluição — antecipa processos globais. Mas também aqui se experimentam outras formas de habitar o colapso; experiências ancoradas em práticas de cuidado, nas memórias da paisagem e nas resistências territoriais que lembram que a Terra é uma condição compartilhada. O Sul não é um local para onde ir; revela a partir de onde — e com quem — pensar e fazer em tempos de crise planetária.

Ana Cecilia Gerrard