Tecnosfera   |   ES  /  EN

Alguns conceitos fundamentais foram construídos para descrever aspectos essenciais do nosso planeta vivo, de complexidade singular. Um deles é o Sistema Terra, para expressar a importância central das interconexões entre seus diferentes componentes. Outros traduzem, numa única palavra, grandes componentes planetários, como "litosfera", "hidrosfera", "atmosfera" e "biosfera". Embora expressos de forma concisa, esses conceitos não são simples: encapsulam os complexos processos e interconexões envolvidos. O conceito de biosfera, por exemplo, é muito mais do que a soma total de todos os organismos vivos: captura também a complexa ciclagem de matéria e energia no interior deles, e as interseções com outras "esferas", como a produção e manutenção, na atmosfera, de mais de um milhão de bilhões de toneladas de oxigênio — uma massa cerca de mil vezes maior do que a biomassa global atual. Essas grandes esferas clássicas existem na Terra há pelo menos três bilhões de anos. Muito mais recentemente, a elas se juntou um recém-chegado que já é parte fundamental — e, simultaneamente, agente perturbador — do próprio Sistema Terra: a tecnosfera*.

A tecnosfera, tal como é hoje amplamente compreendida, foi desenvolvida conceitualmente pelo saudoso Peter Haff (2014a, 2014b, 2016, 2019, 2023). Ela não marca simplesmente o surgimento da tecnologia na Terra, pois animais como corvos e polvos são conhecidos usuários de ferramentas, e esse comportamento deve remontar a muitos milhões de anos; além disso, o uso pré-histórico humano de ferramentas de pedra e osso teve significado cultural e ambiental, mas não constituía uma entidade global com impacto relevante sobre o Sistema Terra. Os sistemas tecnológicos de hoje são de magnitude e escala inteiramente distintas. A crescente massa de objetos tecnológicos em uso atualmente — edificações, estradas, ferramentas e assim por diante — já supera um trilhão de toneladas (e recentemente ultrapassou a massa de toda a vida na Terra). A massa de resíduos e descartes é, no mínimo, uma ordem de grandeza superior. A tecnosfera cresceu exponencialmente nos séculos XX e XXI, atribuindo-se esse crescimento a um processo autocatalítico pelo qual os produtos da tecnosfera aceleram sua própria expansão.

Essa tecnologia foi construída por seres humanos, evidentemente, mas no conceito de Haff os humanos não são tanto criadores da tecnosfera quanto componentes integrais dela, inclusive por meio dos papéis desempenhados por instituições humanas como governos, indústrias, universidades, exércitos e assim por diante. Nossos animais domésticos também fazem parte da tecnosfera, simbolizado de forma mais evidente pelo frango de corte — uma construção tecnológica que vive em ambientes artificiais e é incapaz de sobreviver na natureza.

Praticamente todos os seres humanos na Terra são hoje absolutamente dependentes da tecnosfera para alimentação, abrigo, emprego e inúmeros outros serviços. Coletivamente, porém, não exercem nenhum controle global sobre ela, sobretudo porque a humanidade está dividida em muitas facções que competem mutuamente e, com demasiada frequência, entram em guerra.

Pelo contrário, os humanos e suas instituições estão enredados nas dinâmicas da tecnosfera em rápida evolução que, na memorável analogia de Haff, "avança como um incêndio florestal": o planejamento humano no seu interior é fragmentado e responde, em sua maior parte, a pressões locais. Haff via a tecnosfera como autônoma, portanto fora do controle humano global, e dotada de agência — embora distinta da agência humana. Assim como a biosfera, a tecnosfera é maior — e mais complexa — do que a soma de suas partes. Ela também cresce e evolui com extrema rapidez, tendo dobrado sua massa física funcional no último quarto de século, e desenvolve igualmente novos componentes e processos, como a recente proliferação da IA — um desenvolvimento que compromete ainda mais o papel da agência humana.

De maior relevância, a tecnosfera impacta crescentemente o restante do Sistema Terra, para além de sua presença física em expansão. A maior parte da energia que a impulsiona provém da combustão de combustíveis fósseis. As consequentes variações nas concentrações dos gases traços de efeito estufa, como dióxido de carbono e metano, estão causando um acúmulo de energia térmica no sistema oceano-atmosfera que é uma ordem de grandeza — ou mais — superior à energia útil que os humanos obtiveram dessa combustão. Esses gases de efeito estufa são apenas uma parte dos resíduos da tecnosfera, que incluem também poluentes inéditos como pesticidas, os "produtos químicos eternos", plásticos descartados e inúmeros outros, muitos deles biologicamente nocivos. Enquanto a biosfera coevoluiu com as demais "esferas" por mais de três bilhões de anos e recicla a maior parte de seus componentes, sendo impulsionada sobretudo pela energia solar, a tecnosfera é um fenômeno inteiramente novo, atualmente em grande medida movido pela queima "única" de hidrocarbonetos soterrados, e que recicla relativamente pouco de seus materiais constituintes.

Essencialmente um ramo da biosfera, a tecnosfera parasita e diminui hoje a biosfera, ao mesmo tempo em que exerce impactos mais amplos em todo o Sistema Terra que já agora são transformadores — a ponto de retirá-lo das condições relativamente estáveis da Época Holoceno para as condições distintas e ainda em evolução do Antropoceno. Considerar a tecnosfera, e não simplesmente os "impactos humanos", como agente motor dessa transformação pode nos ajudar a compreender melhor os processos em curso e os graus de liberdade de que dispomos para orientar o planeta em direção a condições mais estáveis e sustentáveis.

Jan Zalasiewicz e Mark Williams

* Abordamos essa questão em A Disharmony of Spheres in the Anthropocene?, o primeiro capítulo do volume Planetary Metaphysics: Scientific, Religious, and Philosophical Perspectives on the Human-Earth Relationship, organizado por Boris Shoshitaishvili, com publicação prevista pela Indiana University Press.