Terra   |   ES  /  EN

Casa, mãe. É o corpo vivo que nos carrega no escuro, embarcação atravessando distâncias. Não é só chão sob nossos pés, é corpo pulsante: mares, nuvens, rochas, raízes, ventos, fungos, bichos e gente numa mesma respiração.

Casa, porque abriga, a atmosfera é teto sutil, os oceanos guardam correntes invisíveis, as florestas tecem paredes de sombra e frescor.

Cada lugar compõe uma parte dessa morada comum.

Ela gera mundos.

Em seu ventre nasceram bactérias, musgos, árvores, pássaros, humanos e sonhos. A diversidade é sua inteligência, ela inventa abundância por meio da diferença.

É possibilidade rara: combinação delicada entre calor e frio, água e pedra, estabilidade e mudança. Sua película de ar protege, seus mares regulam temperaturas, seus organismos transformam o ambiente e recriam continuamente as condições da vida. O equilíbrio não é imóvel, mas dança entre forças diversas.

Ser bailarino, gira sobre si e ao redor do Sol na grande ciranda celeste, de seus passos surgem dias e noites, estações, marés, migrações, florescimentos, colheitas e repousos. Seu movimento mantém o compasso de tudo que nasce.

Habitar esse corpo é presente, temos que celebrar a dádiva de existir em seu colo viajante.

Celebrar o nosso lugar de existência coletiva é continuar lutando e dançando.

A Terra está em disputa entre os que acreditam que podem dela ser donos, que podem explorá-la sem limites e os que sabem que ela é totalidade, que é criadora de mundos possíveis.

Os agentes da exploração definiram um roteiro que nega outros modos de existir e que impede a criação de mundos. Definiram uma arquitetura do labirinto, armadilhas em nosso caminho que precisam ser atravessadas para experienciarmos confluências.

Diante da fúria do sapiens em projetar futuro, nessa arquitetura labiríntica de roteiro de mundo, com as cenas atuais dos múltiplos impactos destrutivos, compreender o Cosmos como dimensão anterior a tudo isso abre a perspectiva para que a humanidade se reconheça como parte dessa dimensão maior, da qual a própria Terra nasceu.

Ailton Krenak e Maíra P. Lacerda