Utopia   |   ES  /  EN

A Utopia é uma ilha. Ela é cercada por penhascos e tempestades, que são fenômenos da natureza. Ela é a limitação natural de si mesma. No contexto geológico e geográfico, toda utopia é vítima das condições naturais assim que se coloca na realidade. No entanto, os limites e limitações que realmente a determinam, não são demandas da Terra. A utopia é, na realidade, vítima da fantasia e do pensamento. Pensar sobre isso e querer perceber isso significa cruzar os limites da existência solidificada. A Utopia, portanto, significa excentricidade. Querer e ser capaz de se exaustar. Ser utópico significa ir para o abismo. No abismo da incerteza e do desejo. Do desejo, porque utopia é a aparência e a presença do erótico. Utopia e Eros estão entrelaçados, e não apenas porque foram unidos dessa forma por Herbert Marcuse no seu livro publicado em 1955, Eros and Civilization: A Philosophical Inquiry into Freud / Eros e Civilização: uma Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud. Mas porque o valor original da palavra Utopia, como Não-Lugar, revela a possibilidade de satisfazer todos os desejos e possibilita o sensível, tudo que é dedicado aos sentidos. Marcuse reconheceu o que já está inerente ao próprio conceito de Utopia. Lugar de êxtase e realização. E também de obrigação e sofrimento. Utopia deriva do grego οὐ (não) + τόπος (lugar). Mas a Antiguidade não transmitiu o significado do utópico. Foi a era moderna e, com ela, o pensamento político de Thomas Morus, dominado pela ciência e tecnologia na sua obra prima Utopia (1516), que deu nome aos projetos utópicos subsequentes. Daí a conexão íntima entre Utopia e Distopia e a relação dialética que conecta ambos os lados do utópico.

Uma Utopia, seja ela qual for, não é uma determinação fixa. É o lugar da possibilidade, que sempre pode se transformar em seu oposto. Portanto, é arriscado projetar uma Utopia. Utopias são dispositivos incendiários no delírio dos discursos que dominam a vida cotidiana. São caminhos de saída que podem levar imediatamente a becos sem saída. Quem projeta uma Utopia é responsável pelo sucesso ou fracasso dela. O Paraíso não é uma Utopia. É a expectativa fechada de uma civilização cansada e sem esperança. O Paraíso é como o Inferno para além do utópico e só a Utopia tem o poder e a possibilidade de moldar o futuro e a continuidade da vida na Terra. Paraíso e Inferno são lugares extraterrestres que talvez podem ser alcançados, mas que são completamente desinteressantes para uma vida ligada à Terra. Existem muitas, quase inúmeras utopias, mas poucas pessoas se dedicam à Utopia.

A própria vida, seja humana, animal, vegetal ou mineral, permanece de preferência nos caminhos fixos e resiste incessantemente a uma possível mudança. É a lei da continuidade que estrangula e murcha as utopias. Quem quer ser utópico, precisa se jogar fora do seu caminho convencional e buscar uma existência mais-que-humana, que não tem nada a ver com os deuses ou com Deus. Deus não é utópico. Ele não é o defensor nem o criador do utópico. Deus quer apenas ser, mas não quer tornar-se. O utópico, porém, é a essência do devir. Então, como a Utopia pode ser pensada e realizada hoje? O mundo em que vivemos está no fim. Todo dia ela é moldada pelo fim e orientada para findar. Isso tem a ver com a doutrina predominante que influencia e determina todas as dimensões políticas e econômicas, sociais e privadas atuais. São as visões de mundos monoteístas que querem se manter por meio da violência e do poder e determinar toda a existência de todos os outros modos de existência.

Sem dúvida há diferenças entre as diferentes orientações, mas a monogamia do pensamento e seu ódio à diversidade e à transgressão, seja qual for a forma como isso seja expresso e implementado, é o abismo do nosso presente e o destino de toda uma época. Somente a rendição completa ao potencial utópico dos seres, fenômenos, humanos e mais-que-humanos pode libertar a Terra das amarras da monogamia física e metafísica. De um relacionamento violento e destrutivo que não permite alteridade e nenhuma mudança. Utopia, portanto, significa essencialmente o desejo e a possibilidade de mudança. Não significa nada preso, e nunca nenhuma solução final, mas o desejo e a vontade de se abrir e criar. Ser utópico significa ser um arquipélago. Levar o fogo da confiança de ilha em ilha, assim como os Selk'nam fizeram por milhares de anos na Terra do Fogo.

Dirk Michael Hennrich